• Arthur Gadelha

Retrospectiva 2021

Os 20 filmes favoritos do Ensaio Crítico

Comemorando um ano de Ensaio Crítico, faço aqui a lista grata - e difícil de compôr - dos 20 filmes favoritos de 2021, esse ano tão contraditório. Da sala de cinema à experiência de festivais online, histórias que marcaram algumas das minhas formas de sentir o mundo. Abaixo das imagens, reúno comentários e links para as críticas e ensaios que foram publicados ao longo do ano.

 

20. Matrix Resurrections

Direção: Lana Wachowski (EUA)

Mesmo que em seguida venha uma enxurrada de explicações sobre o que lhes ocorreu, como estão vivos, para onde foi Zion, etc, a única coisa que realmente importa aqui ao longo de quase 2h30m, é a paixão abandonada entre Neo e Trinity. Essa decisão, tão charmosa quanto cega, é o que o quarto capítulo de Matrix realmente tem para oferecer. Como Steve Rogers dançando com Peggy Carter ou Kevin Garvey acreditando em Nora Durst tantos anos depois sem saber se era tarde demais. Parece justo, não, uma história de amor? Leia a crítica

 

19. Hit the Road

Direção: Panah Panahi (Irã)

Desde a primeira cena, em que o garoto toca um piano desenhado no gesso da perna, a música como elemento fabular vai ameaçando invadir a narrativa de forma até engraçada porque é sempre interrompida. E mesmo que esse humor só sobrevoe o curso dessa fuga sem fim, há uma melancolia imensa em seus rostos, em suas ações, e principalmente nas paisagens, antes eternizadas nas telas de Abbas Kiarostami, que estão lá, mas com um grau de fantasia explícito e brincalhão, suspenso da realidade. É jogando com essas percepções próprias ao cinema, metalinguagem persistente do cinema iraniano, que Panah Panahi dá início a uma identidade cinematográfica deliciosa e bem distante do que tornou seu pai famoso pelos círculos do cinema autoral - como se ele estivesse para Jafar Panahi como Gozaguinha está para Luiz Gonzaga. Que venham as próximas viagens!

 

18. Murina

Direção: Antoneta Alamat Kusijanović (Croácia/Brasil)

Reprimida explicitamente pelo pai, que neste fim de semana recebe a visita de um potencial comprador para suas terras, Julija não se sente tão confortável em expor sua ira frontalmente, fazendo com que seus gestos mínimos sejam motivo de obsessão da câmera de Hélène: os sorrisos que surgem lentamente, quase sempre de forma inesperada, e o olhar “que nunca mente”. Apesar de ter o mar como um espaço de reconciliação e fuga, a fotografia nunca esquece que é a performance hipnótica de Gracija Filipović que realmente guia as sensações. Leia o ensaio

 

17. Judas e o Messias Negro

Direção: Shaka King (EUA)

Embora Daniel Kaluuya tenha levado esse Oscar, eu daria esse prêmio pro Lakeith Stanfield. Como o personagem dele é contraditório, a atuação é igualmente complexa... Você sente no rosto dele a confusão, a dúvida e o medo sobre os rumos que ele tá escolhendo.

 

16. Nomadland

Direção: Chloe Zhao (EUA)

Olhando para esse 2021 caótico pós-2020, a mensagem de Nomadland é bastante efervescente por desromantizar essa sustentação capital que paira sob o orgulho pátrio dos EUA, expondo com certo minimalismo dramático o contexto de uma crise trabalhista que é onipresente no tecido social muito mais do que apenas reflexo da economia de uma nação. O ofício precário, insensível e descartável faz parte de tudo aquilo que suportam as grandes riquezas - como a Amazon, indústria pertencente ao filme. Há um incômodo inquieto, claro, sobre como essa empresa é incorporada na trama e, de certa forma, "higienizada" sobre o conceito dessa relação trabalhista, mas ainda há uma reflexão posta de forma frontal na obra de Zhao: uma civilização realocada e, dessa vez, sem destino. Leia o ensaio

 

15. Uma Noite em Miami

Direção: Regina King (EUA)

As discussões sobre obstáculos e pertencimentos desses ícones à luta antirracista dos EUA dos anos 1960 é o que leva essa conversa fictícia adiante de forma elétrica porque a intenção é realmente observá-los como personagens complexos que se desafiam para compreenderem às próprias integridades. Não são caricaturas. Nesse ponto de conexão, não importa se são poucos os cenários (emulando as trocas teatrais) pois o que King tem de mais único aqui para tornar cinema são seus atores, seus pensamentos e transformações. Como Renato Terra e Ricardo Calil que colocaram Caetano Veloso numa cadeira e conseguiram usá-lo como único elemento de Narciso em Férias, Regina King aproveita seus poucos recursos dramáticos e os leva ao limite do excesso. Mais um pouco seria egocêntrico e menos, seria burocrático. Leia a crítica

 

14. Ataque dos Cães

Direção: Jane Campion (EUA)

A melhor decisão da Campion aqui foi contar essa história exatamente da forma como ela parece: silenciosa, quieta, sorrateira, mas sempre ameaçadora e agressiva. Sem inventar firulas, sem entupi-la de trilha sonora ou sequências violentas para colocar o conflito em evidência - pois ele já está lá, quer se veja ou não. Entre Phill e Peter, o abismo nunca é encarado como está posto na imagem entre o forte e o franzino - há algo (um ataque) acontecendo muito lentamente ali por debaixo, sensação que ultrapassa a dramaturgia e vai parar até na forma como esses cenários imensos são fotografados. Claro que Benedict e Kodi estão ótimos, mas o sublime aqui é mesmo Kirsten Dunst, incorporando essa mulher reprimida que atua num meio de campo nada justo entre as forças presentes ao redor.

 

13. A Praia do Fim do Mundo

Direção: Petrus Cariry (Brasil, CE)

Apaixonado por paisagens como extensões sensitivas de seus personagens, o diretor cearense faz aqui o seu trabalho mais recheado de detalhes, principalmente pela “limitação” do quadro ao preto&branco e pela janela de proporção curta, disfarçando de realidade uma fábula muito bem escondida na meditação de um tempo que passa noutro ritmo. Mesmo abrindo o jogo com aparições e curtas revelações de objetos, sons e alegorias, a dúvida nunca se esgota, e o rosto de Helena, que poderia nos dar dicas por debaixo de expressões tão exaustas, só vai deixando seu espectador mais confuso sobre quais são seus planos na insistência para ver o mundo acabar dali mesmo.

Leia a crítica

 

12. Cavalo

Direção: Rafhael Barbosa e Werner Salles (Brasil, AL)

Há uma performance em especial que parece sintetizar muitos dos sentimentos aqui postos em tela: a dança quieta de Joelma sobre um fio de água que lembra imediatamente as sequências sufocantes de Sob a Pele (2013), do Jonathan Glazer, onde Scarlett Johansson surge como uma alienígena, vestida de ser humano, afogando corpos hipnotizados. Na história de Barbosa e Salles, e no ato de Joelma, o corpo não volta mais para debaixo d'água. Sua fuga súbita que irrompe até o vazio do cenário com um grito de pânico ou epifania, deixa as sensações ainda mais à flor da pele quando mesclada ao rebatismo da chuva na cena seguinte, uma percepção emergente de que esses sons da natureza, da cidade, dos corpos, são sons infinitos. Leia a crítica

 

11. Carro Rei

Direção: Renata Pinheiro (Brasil, PE)

Com a produção interna impulsionada a partir dos anos 1950 pelo governo alarmante de Juscelino Kubitschek, o carro se tornou uma peça-chave para dimensionar o poder econômico da sociedade. Se hoje os veículos mais "baratos" são minúsculos e partem dos R$40 mil, é frustrante lembrar que um dia já convivemos com o conceito de "carro popular", e o Fiat Uno foi o primeiro a se beneficiar dessa realidade onde seguiu invicto por anos até ser descontinuado. No Brasil de Carro Rei, esse mesmo Uno já é velho o suficiente para ser impedido de existir, sintoma que o roteiro atribui a negligência econômica e ao totalitarismo tão hipnotizante que o manifesto perde sentido e vira apenas uma "demonstração de força". Por isso são tão importantes, narrativa e graficamente, as cenas onde a fábula assusta, como a transa à margem da cidade, a mutação súbita dos seres humanos em movimentos doutrinados e a onipresença de um poder aparentemente imbatível.

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10. A Lenda de Candyman

Direção: Nia DaCosta (EUA)

O que A Lenda de Candyman supera em relação ao seu antecessor originário (sem levar em consideração as sequências e nem propriamente o conto de Clive Barker) é a curiosa ironia de um ponto de vista branco, ao mesmo tempo em que honra os significados sólidos e subjetivos de uma fábula literal sobre a experiência de uma cidade que impõe suas condições de ocupação. Quando James Baldwin diz que “a história dos negros nos EUA é a história dos EUA” é a constatação imediata de que histórias como as que deram origem ao Candyman, definitivamente, não são mitos e precisam ser eternamente contadas para todo mundo. Leia a crítica

 

9. Ar Condicionado

Direção: Fradique (Angola)

Quando dorme após finalmente sentir a efêmera brisa de um ar-condicionado, Matacedo vislumbra uma outra vida da qual não se sabe se ele mesmo experimentou ou se são apenas os votos de futuro ganhando imagem e som. Para compor essa sensação flutuante que acomete toda a trajetória, a fotografia de Ery Claver é especialmente emocionante quando se casa à trilha sonora original de Aline Frazão para dar o tom da reflexão. É como um convite modesto, mas nada simples, para se adormecer junto a essa história e deixar que a razão do futuro permaneça lá mesmo, na vontade de, apesar de tudo, estar ali, de fazer parte dessas emoções e memórias que, mais que prédios e ruas, constroem uma cidade. Leia a crítica

 

8. Caixa Preta

Direção: Yann Gozlan (França)

Um thriller delicioso de ritmo e trama sobre um mistério envolvendo o acidente de um avião. Mathieu, vivido com uma energia impressionante do Pierre Niney, é esse personagem típico das investigações intuitivas cuja busca pela verdade, fantasiosamente, é íntegra e honesta. Como o Robert Graysmith de Zodíaco (2007), do Fincher, que não tolera seguir sua vida adiante sem a resposta exata daquele crime. Ambos, nessa comparação meio doida, arriscam a própria profissão para se aproximarem das explicações. Nesse francês, o domínio da tensão e do suspense é invejável, testando sua audiência com teorias e ações das mais imprevisíveis - a sequência que começa num lago de madrugada e termina com uma perseguição Velozes e Furiosos na estrada é dos momentos mais admiráveis de 2021.

 

7. Nós

Direção: Letícia Simões (Brasil, PE)

Ao trazer ao centro de uma conversa íntima a vontade de entender nossas casas, Nós foi uma emocionante escolha para encerrar o 10º Olhar de Cinema, que neste ano homenageou o cineasta palestino Kamal Aljafari e sua busca pela reconexão com as memórias e os corpos (vivos e estáticos) das suas cidades levadas pela guerra e que o fizeram ser também esse nômade pelo mundo no cinema. Assim como Kamal, Letícia se põe num lugar contraditório e desmontador do fascínio pela fisicalidade afetiva dos prédios, praças e ruas que compõem os centros urbanos. Porque, no fim de tudo, esses espaços gerem onde, e como, as pessoas podem existir, então sobram as respostas quanto ao que cada um faz para equilibrar esses limites com a própria vontade de onde estar. Mais que cidades, pertencer às palavras e às amizades. Eu, que sou cearense nascido no Pará, fiquei pensando se não é esta a hora certa de fugir. Leia a crítica

 

6. Instruções para Sobrevivência

Direção: Yana Ugrekhelidze (Alemanha)

Em Kapana, de 2020, a narrativa objetiva espelha a realidade de um país onde o sexo gay ainda é considerado crime (cenário que, aparentemente, está em curso de mudança neste ano, dada a insistência de grupos locais de diretos humanos). Em Instructions for Survival, de Yana Ugrekhelidze, a condução é mais desoladora no documentário sobre um homem trans da Geórgia que não tem assistência médica ou social de seu país que lhe nega o próprio nome. Leia o ensaio

 

5. Eu, Empresa

Direção: Marcus Curvelo e Leon Sampaio (Brasil, BA/MG)

Em meio aos receios e aflições de seu personagem, a "realidade" é tomada por um trânsito de "novas" palavras: Airbnb, Uber, iFood, ASMR, likes, stand-up, seguidores, terraplanismo... elementos contemporâneos de extrema midiatização misturados numa salada intraduzível. Eu, Empresa consegue ser "divertido" exatamente pela sua ousada contradição, pois é na celebração do fracasso que Marcus e Leon encontram um método tão didático quanto crítico para expor a arrogância do que está acontecendo. Leia a crítica

 

4. Rodson (ou onde o sol não tem dó)

Direção: Cleyton Xavier, Clara Chroma e Orlok Sombra (Brasil, CE)

Num ritmo incessante, que invejaria até Gaspar Noé, Rodson quer ser "apenas" o longo caminho de um filme ainda a ser feito, pois não há qualquer intenção de padronizar sua narrativa, nem em estética e muito menos em caracterização. Os letreiros mudam de identidade sempre que reaparecem (e até a mera existência de cartelas), o som das conversas que nunca está com o mesmo tratamento, a composição de "vida real" confrontando à do videogame e da alucinação, a tensa trilha sonora cibernética que parece contemplar um som não-humano... É um delírio único demais para que possa ser descrito assim num texto formal. Um cinema de invenção quase pura que, diante do caos, não tem qualquer caráter aleatório, pois todas as experimentações visuais reinterpretam elementos dessa nossa vida digital para dizer que elas rapidamente pertencerão ao passado.

Leia a crítica

 

3. Maligno

Direção: James Wan (EUA)

Diante dessa efusão de tudo o que tem nas mangas, especialmente após a revelação, Maligno se transforma num filme cuja fantasia mora em si mesmo na mistura de monstros biológicos, imaginações literalmente elétricas, demônios afetuosos e fantasmas condenados. Por isso as performances de Annabelle Wallis (Madison) e até mesmo do George Young (policial) oscilam entre o cartunesco "estereotipado" e o que se espera de uma naturalidade urbana, o que no fim das contas dá ao filme o tão merecido tom escrachado de uma fábula sangrenta. O "passo adiante", já dito por outras pessoas, que James Wan dá na concepção desse filme é na realidade o contrário do egocentrismo impresso pelo conceito, pois é de forma modesta, mas não menos intensa, que o autor se veste das várias camadas do horror clássico e contemporâneo para propor a honestidade de como as histórias sobrenaturais são, como tais, fora desse mundo, e por isso sempre permitidas à reinvenção das coisas que já conquistaram seus espaços. Leia a crítica

 

2. A Cidade dos Abismos

Direção: Priscyla Bettim e Renato Coelho (Brasil, SP)

A morte, assustadora e silenciada, não é motivo para o desespero, mas de condução à conformidade. “Queria despir-me da luta, pisar em coisas brutas, sem me arrepender” - após ser atacada na rua, Glória recita Anderson Herzer, primeiro autor trans a publicar um livro no Brasil, também julgado marginal pelo Estado. Nessa história, as curtas resistências são silenciosas e vividas na reclusão, como a escura missa do padre Júlio Lancellotti para as amigas em luto, o pôr do sol visto do terraço, ou as bebidas no bar do refugiado Kakule. É tudo fuga e esconderijo, na expectativa de que uma explosão um dia mude as coisas. Apesar dos cenários escuros, iluminados com muito critério no limite do visível e da intensidade de cada cor, a claustrofobia não é necessariamente anunciada até que seja inevitável. Mas ela sempre esteve lá. Diferente do próprio Obra ou do cômico Sinfonia da Necrópole (2016), que também tem o esquecimento institucional no cerne da questão, Priscyla Bettim e Renato Coelho tomam essa dimensão como a maior revelação cacofônica de sua história, o resumo de uma cidade que mesmo funcionando 24 horas, parece que é sempre noite, sempre embriagando seus moradores marginais numa rota secreta que pode desaparecer sem que ninguém dê conta. Leia a crítica

 

1. First Cow

Direção: Kelly Reichardt (EUA)

O cinema construído com minúcia por Kelly Reichardt não se encontra por aí na tela de qualquer esquina. Silencioso e quieto de tal modo que está muito mais próximo às observações religiosas de Frederic Wiseman do que de quaisquer ficções estilizadas "de autor". Há um respeito, quase culto, muito honesto e tímida aos espaços, aos pequenos dramas em curso dentro desses personagens. Em 2021, após longo período de espera, seu último filme First Cow finalmente encontrou um circuito reduzido no Brasil, tanto em salas de cinema quanto no streaming da Mubi que fez o favor de apresentar outras quatro de suas obras. Vistas em conjunto, está claro que tudo o que traça e define a sua forma de mostrar, montar e contar histórias está concentrada em First Cow da maneira mais efusiva possível. Em breve, o Ensaio Crítico lançará um texto sobre a carreira de Kelly, incluindo as reflexões sobre este filme tão marcante de 2021.