• Arthur Gadelha

Hélène Louvart: sufoco e desejo sobrepostos na fotografia de ‘Murina’

ENSAIO Vencedor da Câmera de Ouro no Festival de Cannes, Murina tem uma fotografia que se desafia na contradição

Não é propriamente uma surpresa quando o nome de Hélène Louvart surge nos créditos finais, enquanto Julija navega por um mar que se torna cada vez mais imenso (e talvez fabular) à medida em que a câmera se afasta e a garota vai se transformando num pequeno rastro de espuma – isso porque tornar solidão em imagem, contrapondo indivíduo e paisagem, é um dos traços mais consolidados na carreira da fotógrafa francesa. Com seu filme de trabalho mais recente em exibição, estreia na direção da croata Antoneta Alamat Kusijanović produzido pela brasileira RT Features, essa constatação é reafirmada.


Diferente do que Emmanuel Lubezki faz nos últimos filmes de Terrence Malick, cineasta americano que nunca escondeu sua paixão pela sublimidade inata à natureza, Hélène nunca transforma a miragem numa beleza oca, apesar de ser uma escolha tentadora. Diante do deslumbre imediato, por vezes inevitável, do plano de fundo, a emoção se pulveriza se for desenvolvida por si só – a solidão precisa de contraponto, seja físico ou psicológico, e não há muitas formas maduras dela ser apresentada sozinha, por mais contraditório que isso pareça ser.



No italiano Lazzaro Felice (2018), a ingenuidade de Lazzaro nunca é compatível com a aridez do ambiente rural em que trabalha e convive, então as imagens buscam a alteridade na fantasia, no sonho, mas também nunca abandonando a “realidade”, como se entrar na cabeça desse garoto fosse impossível – os reflexos na água, o calor do sol, o conforto emoldurado nas plantas... coisas naturais ganham esses olhares sintonizados com a narrativa abertamente fantástica da diretora Alice Rohrwacher.


Já no brasileiro A Vida Invisível (2019), de Karim Aïnouz, a paisagem é a cidade, uma Rio de Janeiro imóvel que espelha à reclusão vivida por Eurídice, que nunca a experimenta propriamente – Hélène transforma essa jornada em direção ao vazio ainda mais sufocante do que ela já é no texto, na direção e na performance. O mesmo acontece em Todos os Mortos (2020), de Marco Dutra e Caetano Gotardo, onde talvez por um truque técnico adicionado à narrativa, as tramas de uma família branca coagida pelo fim da escravidão e de uma família negra na expectativa do reencontro, acontecem quase que 100% entre quatro paredes, sufocadas pela vaga possibilidade de pisar na rua e pertencer a uma São Paulo em transe.


Em Murina (2021), a relação de Julija com o mar parece bem análoga a de Lazzaro, Eurídice, Frankie (Beach Rats, 2017) e os espaços que detém para expurgar quaisquer tensões ou receios, sendo curiosamente a primeira experiência de Hélène com filmagem debaixo d'água, como revelou numa entrevista para a Associação Francesa de Fotógrafos. Em vista já das primeiras imagens, o filme se apresenta como um exercício visualmente impressionante ao dar conta de certa angústia e suspense de sua protagonista na forma como ela preenche a paisagem oceânica: ela e seu pai mergulham para caçar a murina que dá nome ao filme, uma espécie de peixe que vive incrustrado nas pedras.



Reprimida explicitamente pelo pai, que neste fim de semana recebe a visita de um potencial comprador para suas terras, Julija não se sente tão confortável em expor sua ira frontalmente, fazendo com que seus gestos mínimos sejam motivo de obsessão da câmera de Hélène: os sorrisos que surgem lentamente, quase sempre de forma inesperada, e o olhar “que nunca mente”. Apesar de ter o mar como um espaço de reconciliação e fuga, a fotografia nunca esquece que é a performance hipnótica de Gracija Filipović que realmente guia as sensações.


Como no filme de Rohrwacher, também não há qualquer diferença visual entre a realidade e o devaneio, a exemplo de quando Julija se imagina submersa pescando o próprio pai para que, cenas mais tarde, a mesma cena quase que se repita no mundo real. Antes de conhecermos as condições totalmente contraditórias entre paraíso e prisão vividas pela protagonista, o azul denso do mar pintado pelas rajadas de sol até parece belo por si só – para depois ser sinônimo de agonia.


A fuga do cativeiro deixa essas sensações claras, principalmente com o intuito de subverter essas analogias, calhando no instante em que a garota se desprende dessa história atravessando o mar à nado para se encontrar como mulher, dessa vez desamarrada dos olhares masculinos que impuseram ela e sua mãe, vivida por Danica Ćurčić, um ato de fuga que simboliza mais a beleza do impulso do que exatamente um ponto final.


Com uma protagonista tão silenciosa, porém efusiva, Hélène Louvart e Antoneta Alamat Kusijanović reconstroem uma história sobre amadurecimento e revolta que provavelmente já assistimos outras vezes, mas sem uma imagem tão mutável quanto a sobreposta aqui entre repressão e liberdade.

★★★★

Direção: Antoneta Alamat Kusijanovic

Roteiro: Antoneta Alamat Kusijanovic, Frank Graziano

Fotografia: Hélène Louvart

Montagem: Vladimir Gojun

Desenho de Som: Julij Zornik

Desenho de Produção: Ivan Veljača

Música: Evgueni Galperine, Sacha Galperine

Elenco: Gracija Filipović, Danica Čurčić, Leon Lučev, Cliff Curtis

Produção: Danijel Pek, Rodrigo Teixeira

País de Produção: Croácia, Brasil, EUA, Eslovênia

Ano de Lançamento: 2021