• Arthur Gadelha

A ancestralidade de "Cavalo" viaja para o futuro

CRÍTICA Experimentando a liberdade da dança, filme alagoano mergulha na memória do corpo e de seu espaço

Dirigido por Rafhael Barbosa e Werner Salles, Cavalo (2020) é o primeiro longa-metragem produzido em Alagoas por meio de edital público, pioneirismo importante de se destacar, principalmente, pelo contexto de suspense do cinema brasileiro em meio a um governo negligente e uma pandemia que desafia todas as estratégias de produção e distribuição. Na tela, é ainda mais significativo que esse marco estrutural seja justamente uma história sobre o corpo brasileiro em suas relações socioculturais com a cidade e com a própria arte do movimento.


No prólogo, o cenário do mangue evoca o levantar da humanidade quando filma os galhos que emergem dos rios junto a um novo "tipo de ser" que caminha num ritual de batismo da própria terra: o corpo negro-origem, banhado em vento, canto, gritos e milagres. Lentamente, mas de forma brutal, Cavalo se apresenta como uma experiência onírica sobre as identidades veladas e proprietárias desse Brasil.


Para projetar suas ancestralidades em torno do arquétipo do cavalo (termo referente aos que recebem entidades no próprio corpo), o experimento reúne sete dançarinos: Alexandrea Constantino, Evez Roc, Joelma Ferreira, Leide Serafim Olodum, Leonardo Doullennerr, Robert Maxwell e Sara de Oliveira. Diante da pluralidade das performances que surgem à partir desse convite, o filme mescla ficção, documentário, performance e musical de forma pouquíssimo óbvia: numa cena o banho na lama, na outra um passeio por um mercado urbano, um show escondido, um ritual religioso, uma entrevistada sob luz de palco, de filmagens profissionais a caseiras.



Quando essa história invade o presente, invade também a "realidade". De repente, o jogo é documentar a ficção ou destrinchar a performance? Essa dubiedade vai sustentando uma busca de sentimentos sobre o corpo convertido no seu próprio movimento, na dança "sem dúvidas", como revela uma das artistas sobre sua devoção à linguagem. Quando o teatro busca o impulso pela manifestação pura do corpo, essa viagem leva minhas sensações para Inabitáveis, de Anderson Bardot; aqui, se não pautado pelo desejo, mas guiado pela efusão da identidade, de certo expurgo, respiro. Nesse jogo de construção, Cavalo também precisa negar uma "ancestralidade" imposta pela opressão dogmática - não à toa, quando a proteção cristã surge de forma naturalizada na fala da mãe de uma das personagens, o discurso se opõe em seguida na figura de uma Eva revoltada com a culpa que carrega na crença católica por uma tola desobediência. Quais memórias e ficções precisam ser levadas adiante para reconstruir nossa história?


Há uma performance em especial que parece sintetizar muitos dos sentimentos aqui postos em tela: a dança quieta de Joelma sobre um fio de água que lembra imediatamente as sequências sufocantes de Sob a Pele (2013), do Jonathan Glazer, onde Scarlett Johansson surge como uma alienígena, vestida de ser humano, afogando corpos hipnotizados. Na história de Barbosa e Salles, e no ato de Joelma, o corpo não volta mais para debaixo d'água. Sua fuga súbita que irrompe até o vazio do cenário com um grito de pânico ou epifania, deixa as sensações ainda mais à flor da pele quando mesclada ao rebatismo da chuva na cena seguinte, uma percepção emergente de que esses sons da natureza, da cidade, dos corpos, são sons infinitos.

 
 

Direção e Roteiro: Rafhael Barbosa e Werner Salles

Produção Executiva: Valeska Leão

Direção de Produção: Adriana Monolio

Direção de Fotografia: Roberto Iuri

Som: Simone Dourado

Montagem: Werner Salles e João Paulo Procópio

País: Brasil (AL)

Ano de lançamento: 2021