• Arthur Gadelha

Eu, Empresa: Sabe o que é mindset? Nem eu

Atualizado: Jan 31

Jornada urbana de Joder em busca do sucesso encontra a celebração do fracasso

Quando traduz esta nossa experiência urbana como uma "sociedade positiva", o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han aponta para o oposto do conceito quando conclui a superficialidade de um contexto que para se manter produtivo precisa negar toda a negatividade e acreditar na superação, na autonomia da manutenção de suas próprias produções financeiras. A sociedade que Han interpreta "se encaixar sem qualquer resistência ao curso raso do capital, da comunicação e da informação" é a mesma contramão do primeiro longa de Marcus Curvelo em codireção com Leon Sampaio: a sociedade dispersa do coletivo para oficializar, e tornar amigável, a individualidade.


Ao reapresentar Joder, personagem que já sofreu desse mesmo Brasil desordenado em curtas anteriores, Marcus e Leon justificam porque sua trajetória precisou dessa extensão, uma espécie de anexo solitário sobre sua busca por se compreender brasileiro. Desempregado, Joder tenta acessar as alternativas neoliberais de um mercado que ultrapassa o conceito pátrio rumo a uma prisão "voluntária" de cunho globalista. Sedutor, não? Fazer parte de um ciclo econômico mundial?


Mas o melhor de tudo é que este não é, definitivamente, como um filme do Ken Loach que vai denunciar a omissão ou mau-caratismo do Estado de forma sisuda e até mesmo técnica. Eu, Empresa elabora o deboche como elemento principal para instalar a reflexão à partir da ironia. Esse é o grande acerto da produção cujo mérito está, para além da flexibilidade no roteiro e na montagem, principalmente na interpretação de Marcus Curvelo na pele desse Joder completamente desnorteado. Ao mesmo tempo em que sua performance faz as situações soarem engraçadas, o tom didático (num sentido comedido) se mantém presente sem soar óbvio, panfletário ou superficial.


Um exemplo narrativo destacável dessa costura é quando essa "ficção do mundo real" dialoga diretamente com a realidade de forma até incisiva demais. A conversa com os motoqueiros de aplicativo, que resumem pragmaticamente as reflexões de Han sobre as "novas técnicas de poder", é uma mistura tão potente, e em certo nível até descompromissada, quanto o ato final de Pajeú, de Pedro Diógenes. Uma conversa direta sobre como essas ferramentas se apropriam dos espaços deixados sem resolução.


Nesse jogo de confrontar a positividade, o filme põe na mesa (com o mesmo deboche) as míticas "filosofias" urbanas do sucesso. O coach motivacional e os raciocínios de auto empreendimento projetados no universo dos blogs, redes e canais online à partir da incorporação política nesses meios de comunicação. É curioso isso ser uma substância central porque essa vertente específica do empreendedorismo imagético é algo pouco posto em evidência nas discussões sobre "novas economias", e Joder elenca esses pensamentos de forma bastante simples.


Ou seja, é também um filme sem certezas, totalmente ilhado nas dúvidas sobre a generalização da força de trabalho sobre outras classes sociais também. Na jornada de Joder, essa sensação de encurralamento vira uma paranoia infinita, um personagem perdido que para entender o descontrole também precisa, em certo grau, defendê-lo.


Em meio aos receios e aflições de seu personagem, a "realidade" é tomada por um trânsito de "novas" palavras: Airbnb, Uber, iFood, ASMR, likes, stand-up, seguidores, terraplanismo... elementos contemporâneos de extrema midiatização misturados numa salada intraduzível. Eu, Empresa consegue ser "divertido" exatamente pela sua ousada contradição, pois é na celebração do fracasso que Marcus e Leon encontram um método tão didático quanto crítico para expor a arrogância do que está acontecendo.

★★★★

Direção: Marcus Curvelo e Leon Sampaio

País: Brasil (BA/MG)

Ano: 2021

Essa crítica faz parte da Cobertura da 24ª Mostra de Cinema de Tiradentes