• Arthur Gadelha

A Cidade dos Abismos: a noite esquece

CRÍTICA Pulsando pela fantasia, Priscyla Bettim e Renato Coelho emolduram a sensação de uma São Paulo sempre soturna

Em Obra (2015), quando Gregorio Graziosi apresenta um engenheiro que sofre de dores na coluna após sua construção estancar pelo aparecimento de uma ossada desconhecida no terreno escavado, fica claro que o ponto de partida é a visão de uma cidade tão em curso desenvolvimentista que se vê devota ao presente, apesar de negligenciar suas contradições como toda grande metrópole. Talvez seja esta mesma São Paulo que se esconde sob as penumbras de A Cidade dos Abismos, mas com todo aquele sépia sufocante dando lugar a condenação de uma noite devoradora.


Para dar o pontapé de seu raciocínio turvo, um inesperado assassinato afunda a realidade de personagens que se relacionavam dormentes com uma cidade calada. Mas o que constantemente impressiona os olhares sobre essa crônica é sua eletricidade particular na condução visual desses sentimentos de tontura e rendição; há muitas texturas, tons dramáticos e sobreposições assustadoras sobre (e sob) as imagens deliciosamente granuladas em película. Então São Paulo vai virando um "faz de contas" no ritmo d’O Bandido da Luz Vermelha (1968), quando Rogério Sganzerla vira aos avessos o abismo social da cidade e sua contradição midiática na composição de um thriller.


A morte, assustadora e silenciada, não é motivo para o desespero, mas de condução à conformidade. “Queria despir-me da luta, pisar em coisas brutas, sem me arrepender” - após ser atacada na rua, Maya recita Anderson Herzer, primeiro autor trans a publicar um livro no Brasil, também julgado marginal pelo Estado. Nessa história, as curtas resistências são silenciosas e vividas na reclusão, como a escura missa do padre Júlio Lancellotti para as amigas em luto, o pôr do sol visto do terraço, ou as bebidas no bar do refugiado Kakule. É tudo fuga e esconderijo, na expectativa de que uma explosão um dia mude as coisas.



Esse olhar, claro, não é coisa nova. "São Paulo é uma cidade difícil, ouço por aí. Difícil de entender, difícil de viver e até difícil de olhar", comenta Andréa Barbosa num brilhante estudo sobre as representações da cidade no cinema dos anos 1980. "É uma cidade noturna, azul, úmida, povoada de anjos e marginais que perambulam entre becos e muros intermináveis"¹ - ao fazer um resumo das imagens que encontrou 40 anos atrás, Andréa parece propor o escopo deste filme lançado em 2021 com voz e corpos explicitamente contemporâneos.


Mesmo na consciência fabular devota às sensações não naturalistas, é que o filme parece compor seu retrato mais honesto e objetivo sobre os contrassensos de São Paulo. Nesse atravessamento, as performances oscilam muito bem entre a proclamação e o segredo da vida real. Verónica Valenttino, que vive Maya, e Guylain Mukendi, Kakule, são os expoentes de todos os sentimentos de coragem, medo e esperança que pulsam na tela. E apesar de serem pequenas participações, Arrigo Barnabé e Francis Vogner dos Reis colaboram com certo grau de reação ao caos.


Apesar dos cenários escuros, iluminados com muito critério no limite do visível e da intensidade de cada cor, a claustrofobia não é necessariamente anunciada até que seja inevitável. Mas ela sempre esteve lá. Diferente do próprio Obra ou do cômico Sinfonia da Necrópole (2016), que também tem o esquecimento institucional no cerne da questão, Priscyla Bettim e Renato Coelho tomam essa dimensão como a maior revelação cacofônica de sua história, o resumo de uma cidade que mesmo funcionando 24 horas, parece que é sempre noite, sempre embriagando seus moradores marginais numa rota secreta que pode desaparecer sem que ninguém dê conta.


Essa crítica compõe a cobertura do 10º Olhar de Cinema

★★★★

Direção: Priscyla Bettim e Renato Coelho

Roteiro: Priscyla Bettim

Produção: Renato Coelho, Renata Jardim

Fotografia: Rodrigo Pannacci

Montagem: Caio Lazaneo

Som: Marina Bruno, Guile Martins

Música: Arrigo Barnabé, Vitor Kisil Miskalo

Arte: Bira Nogueira

País de Origem: Brasil

Ano de Lançamento: 2021







Referência citada

  1. São Paulo, Cidade Azul - ensaios sobre as imagens da cidade no cinema paulista dos anos 1980 (2012), editora Alameda, autora Andréa Barbosa. Citação da página 36.