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  • Arthur Gadelha

Cinema 2022: 20 filmes favoritos do Ensaio Crítico

lista Nessa lista, uma seleção de filmes que estrearam em circuito comercial de salas

Como de costume, ao fim de todo ano encaramos diversas listas de "melhores filmes" construídas por pessoas que tiveram suas experiências particulares com o cinema. Mesmo que o circuito exibidor brasileiro nos prive de muito do que acontece ao redor do mundo - e até mesmo por aqui em festivais -, o saldo consegue ser instigante diante das narrativas possíveis de alcançar a estreia comercial. Nessa publicação, reúno meus filmes favoritos assistidos ao longo de 2022, esse ano tão apoteótico que chega ao fim recheado de esperança.


20. Seguindo Todos os Protocolos

Direção: Fábio Leal (Brasil)

Diante da lógica constatação de que estamos vendo esse mesmo filme repetidas vezes desde que álcool e máscaras se instalaram nas nossas vidas como peças de guarda-roupa, acho que a melhor coisa da estreia de Fábio Leal nos longas é este ser um filme genuinamente engraçado. Mesmo que a pandemia seja o gatilho central, a história desse homem em busca de prazer sexual sem contato faz quase que uma reviravolta em torno daqueles valores que estamos fadados por sentir igual há muito tempo; solidão, melancolia, angústia, ansiedade. Claro, tudo isso ainda há no aperreio de Francisco, mas não na forma como Fábio nos conta. Filmes como O Dia da Posse (2021) e Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental (2021), até tentaram soar desse jeito.

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19. Vitalina Varela

Direção: Pedro Costa (Portugal)

"...o medo também vai pro céu". Sendo uma clara "experiência Pedro Costa", a sensação de ver esse filme é de uma investigação sem fim, principalmente pela forma como as imagens se aprisionam em si mesmas; o que chega na tela, o que vemos, é como um esforço quilométrico da própria luz que pena para conseguir nos entregar esses mínimos vestígios em cada um dos quadros, como se fossem pedaços de um sonho que lembramos pouco. Como um míope sem óculos que precisa apertar os olhos para filtrar alguma coisa da realidade. Nessa história, essa abordagem visual precisa dizer sempre mais que o próprio texto, dizer a tragédia, a solidão, o luto de um país, sua mão-de-obra e seu destino. Neste se presume cruelmente, como naquele Portugal colonizador, que dos corpos enterrados, seus espíritos só falam mesmo português.

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18. Licorice Pizza

Direção: Paul Thomas Anderson (EUA)

No intuito de materializar uma felicidade que se mantém viva apesar das ameaças, 'Licorice Pizza' consegue ser especial mesmo sem promessas, mesmo tão simples, como uma junção inofensiva, e em certo grau até cômoda, de tudo aquilo que consagrou seu diretor como um contador de histórias gravemente urbanas - e o melhor, sem precisar reciclar absolutamente nada. Leia a crítica completa


17. Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Direção: Daniel Kwan e Daniel Scheinert (EUA)

Mesmo que seja uma espécie de "filme-sensação" do momento, inspirando textos dos mais diversos na bolha cinéfila meses depois de sua estreia oficial nos cinemas brasileiros, sinto que pouco tem se falado de verdade sobre esse filme. Com uma intenção nada minimalista, a trama nos joga para dentro de um multiverso no mesmo ano em que as peripécias do Sam Raimi se deitaram sobre o conceito na enfadonha sequência de Doutor Estranho. Na tela dos Daniels (autores daquele bizarramente ótimo Um Cadáver para Sobreviver), essa história fica cada vez mais megalomaníaca ao passo em que, contraditoriamente, vai se tornando simples. No fim das contas, é um filme muito mais divertido do que qualquer outro propósito superior – a edição rápida, o roteiro que sabe girar em círculos e, claro, a performance elétrica de Michelle Yeoh, fazem dessa história algo inesquecível.


16. Como Matar a Besta

Direção: Agustina San Martín (Argentina)

Acontecendo na fronteira entre Brasil e Argentina, essa história consegue nos levar ao suspense de um “não-lugar”, como que parado no tempo, escondido, assombrado. Emília chega ao vilarejo em busca do irmão que, de repente, parou de dar notícias – encontra uma casa abandonada, uma vizinhança calada, e uma crença que ronda sobre a existência de uma fera escondida na mata. A forma como esse emaranhado é conduzido impressiona nas respostas, mas principalmente nas perguntas.


15. A Filha Perdida

Direção: Maggie Gylenhaal (EUA)

Referenciada em diversas discussões sobre o processo de tradução literária, a exclamação de Umberto Eco observa esse cuidado em seu gesto inevitável de agressão: "Traduzir é trair". Personagem central na trama escrita por Elena Ferrante, Leda é uma tradutora que está de férias numa pacata cidade litorânea; sozinha e silenciosa, como se num retiro espiritual, ela é assombrada pelo passado quando estabelece um paralelo involuntário à partir dos sentimentos que ainda não entende perto dos 50 anos de idade. Ao encarar o olhar daquela mãe jovem e procurar significados familiares, Leda está, de certa forma, traduzindo sua própria história em conflitos secretos, como se nessa inofensiva traição ela fizesse um presságio infeliz àquelas "pessoas ruins". Alguém ali merecia sentir essa sensação que nem se sabe o nome e nem se sabe se passa?

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14. Pequenos Guerreiros

Direção: Barbara Cariry (Brasil)

Como foi o objetivo do primeiro Turma da Mônica, essa estreia da Bárbara na direção de longas também tem uma aventura pautada pela realidade encarando a fantasia do olhar infantil - aqui é bem mais delicioso, claro, porque traz essa magia da nossa cultura com uma felicidade contagiante e com uma preocupação propriamente cinematográfica que Daniel Rezende lá rodou no automático. Em Pequenos Guerreiros, a sensação de um Ceará muito vivo (a imagem, o som, a música) é como consequência da forma como essa família o pertence ao atravessá-lo da praia ao extremo sertão para tornar um pequeno sonho real. "Como é que essa galinha aí virou pedra, hein?" - a presença das crianças dão constantemente essa graça de olhar para o mundo sem precisar vê-lo exatamente como ele é, uma experiência que é tal qual boa parte das ilusões do cinema - seja no "americano" do Spielberg, seja nessa história brasileiramente cearense.

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13. Não! Não Olhe!

Direção: Jordan Peele (EUA)

Independente do que se ache sobre a carreira de Jordan Peele, é difícil discordar da credibilidade que há no seu pulso pela reinvenção, gesto alimentado como um “contraponto” aos signos que fomos “programados” para reconhecer. Em Corra! (2017) e Nós (2019), sob discussões raciais, éticas e civis da violenta fundação dos EUA, ainda existe um filme que se atém à estrutura dos gêneros – ou seja, reafirmar a forma como vemos esses filmes é justamente a estratégia para decodificarmos o que está para além da forma, ultrapassando o limite da conformidade entre nós e o que está na tela. A obra de Peele, afinal, está longe de um cinema conformado.


Quando o mistério “se desfaz”, duas sensações tomaram conta de mim. A primeira é de certa suspensão dada a falta de urgência, mas a segunda é mais charmosa: a de que Peele está tentando fazer a sua própria versão de Os Pássaros (1963) misturado a Sinais (2002), mas levando-a para o futuro com discussões independentes e sem nunca parecer que está se escondendo sobre as coisas que já existem. Esse novo capítulo tenta algo novo, e consegue.

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12. A Felicidade das Coisas

Direção: Thais Fujinaga (Brasil)

A piscina do lado de fora, as estrelas vistas do rio, o parque à luz do dia... são imagens ao mesmo tempo eloquentes e misteriosas sobre as frustrações que entornam a vida de Paula - nunca como pedido de socorro (como talvez se espere), mas como uma manifestação silenciosa das coisas que ainda podem dar certo. Os filhos, sua mãe, a casa e ela mesma. Apesar do tĩtulo, esse é um filme pouco feliz. Mas aquele olhar trocado nos 45 do segundo tempo, quem sabe, nos diga muitas outras coisas felizes. Com esse novo capítulo, a Filmes de Plástico continua nessa delicada missão de entender os valores urbanos e sociais desses vários Brasis constantemente tropeçados no próprio passo.

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11. A Pior Pessoas do Mundo

Direção: Joachim Trier (Noruega)

Quando o tempo literalmente para num momento em que sua protagonista se vê enfiada numa dúvida imensa, fica a certeza de que a equação de drama e humor dessa história tem cara de ser coisa única. Assim como tantas outras pessoas neste exato momento, Julie nunca está muito certa de que está tomando as melhores decisões para sua vida. Com a envolvente interpretação da dupla Renate Reinsve e Anders Danielsen Lie, Joachim Trier faz dessa angústia seu projeto de maior delicadeza, conseguindo que uma história tão pequena pareça para nós tão mágica e reveladora.


10. The Batman

Direção: Matt Reeves (EUA)

Saí da sala de cinema contente que The Batman consiga ser a consequência mais corajosa daquilo que Nolan deu um start. Nem a cidade robusta ocupada por Christian Bale, nem a sem personalidade em que Ben Affleck posava friamente. A Gotham construída neste novo capítulo é grave, intimidante, uma colisão de tudo o que já se imaginou desta cidade, como se na deliciosa cenografia do Tim Burton nos anos 1990 se substituísse a fantasia pela tragédia.


Acho importante começar esse ensaio pela percepção de Gotham porque ela é quem dá constantemente o tom de como aquela figura tão fabular ocupa o imaginário das pessoas e de seu próprio organismo. Mais personagem que o próprio Batman, uma cidade cuja desigualdade constrói tanto os heróis quanto os vilões, espírito que já pulsou forte na jornada do Pinguim de 1992. The Batman se constrói como um “filme de origem” ao passo em que, para Bruce, descobrir a podridão da cidade é descobrir a própria incoerência como parte política de uma estrutura sem solução, sem saída, condenada pela própria fundação da qual sua família faz parte.

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9. Eduardo e Mônica

Direção: René Sampaio (Brasil)

Pensando inicialmente para ser lançado antes da pandemia, acabou que esse projeto tão esperado só conseguiu chegar aos cinemas em 2022. Apesar disso, surpreende que ele não pareça datado, sem timing, especialmente pela atemporalidade do impacto de sua matéria-prima: a canção homônima de Renato Russo. Como um raro brasileiro que não sente qualquer paixão por essa música, fui pego de surpresa pelo fato de essa adaptação ter me tocado tanto. Esperei algo profundamente cafona e previsível, e encontrei um filme desapressado, charmoso – e muito se deve pela impressionante sinergia entre Alice Braga e Gabriel Leone. A aproximação, a passagem dos anos e as transformações convencem a cada nova etapa e esse casal, inevitavelmente, para minha tristeza que não suporta ouvir a música, consagra-se como parte da cultura brasileira agora também no cinema.


8. Memoria

Direção: Apichatpong Weerasethakul (Colômbia/Tailândia)

Partindo rumo ao interior da Colômbia, a investigação descompromissada de Jéssica acaba nos conduzindo para angústias que nos pertencem. Em especial no longo e magnético encontro que tem com Hernán, um morador rural que nunca saiu dali, essa conversa sobre as lembranças sensoriais e afetivas vai descampar num contraste entre a morte e os sonhos, passado e futuro interligados por aquilo que é imenso para nós, mas pouquíssimo relevante para a natureza do universo: o som. De que sons somos capazes de lembrar e o que eles nos dizem sobre nós? A viagem segue dentro e fora da tela. Será um filme diferente para cada um.

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7. Aftersun

Direção: Charlotte Wells (EUA)

Aos 11 anos, Sophie está vendo o pai reagir a algo que ela não compreende, ou supõe, porque ele não a deixa o ver desmoronar. A forma como Paul Mescal constrói esse peso é comovente, conseguindo comportar seus sorrisos, seus olhares e as conversas, tornando essa relação tão afetuosa quanto contraditoriamente limitada de sinceridade. Nesse passado, claro, Sophie nunca enxerga qualquer fragilidade. "Aos 11 anos o que você pensava que estaria fazendo hoje?", ela pergunta enquanto anuncia para a câmera seu pai chegando aos 30 anos. Há um incômodo e ele pede para que ela desligue. Na pele dessa pequena personagem, Frankie Corio é uma revelação porque sabe construir um "peso" nem tão diferente: o de ser jovem e tentar entender seu futuro, mesmo que com medo e curiosidade, tentando abandonar a inocência.

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6. Carvão

Direção: Carolina Markowicz (Brasil)

Inevitavelmente, quando as primeiras imagens dessa estreia da Carolina Markowicz chegam à tela disfarçadas de "carinho" para em seguida serem atropeladas por uma tensão imensa, sou levado a uma obra de caráter bem semelhante: A Mesma Parte de um Homem, da paranaense Ana Johann. Em ambos, uma realidade acanhada que é atravessada pelo barulho de um intruso que, aos poucos, é ele mesmo engolido pelo que acreditava ter domínio. Além disso, também a ambientação isolada, a clausura de uma família desmedida, a fotografia fria e até mesmo as contradições que partem do impulso sexual. Silenciosamente, esses dois filmes nos enganam: enquanto o ritmo faz questão de parecer manso, estão mesmo é preparando explosões a olho nu - e o fato delas nunca acontecerem, de fato, é o que os dá uma sensação que dificilmente sobrevive sozinha em filmes insensíveis: a crueldade.

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5. Drive My Car

Direção: Ryusuke Hamaguchi (Japão)

São três horas que voam porque Hamaguchi é um charmoso contador de histórias e porque aqui ele tem em mãos coisas muito preciosas... a longa cena da conversa no carro entre três pessoas, uma delas revelando um segredo, é a síntese de confiança que o filme tem no elenco e na condução de uma trama tão objetiva e misteriosa na mesma medida. "Não pareceu que ele estava mentindo..." Drive My Car está mesmo muito longe da mentira.


4. Pequena Mamãe

Direção: Céline Sciamma (França)

À medida em que vai se deixando ser atravessada pelo amor daquela amiga tão especial, Petite Maman vai se tornando uma história até metalinguística sobre a manutenção das memórias, objetos determinantes na forma como "vemos" um passado que é tão criado quanto os pensamentos e as imaginações, e não à toa os sonhos são as formas de toda essa soma anárquica. Petite Maman é como esse sonho lúcido, embora completamente devoto de uma ficção sem pontos finais. Nesse ponto, a fotografia vívida de Claire Mathon (Retrato de uma Jovem em Chamas, Atlantique, Um Estranho no Lago) é outra colaboradora crucial dessa sensação de um devaneio tão real que convence exatamente em sua contradição - dando o tom sempre com uma luz radiante, quente e acolhedora, desaparecem as distâncias entre o efetivo e a ilusão, a floresta e a casa, o presente e o passado, a mãe e a filha, Nelly e Marion.

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3. Moonage Daydream

Direção: Brett Morgen (EUA/Alemanha)

Quando as estrelas brilham na tela escura para nos apresentar a lua, minha madrinha que estava ao lado comentou baixo: "a gente tinha que ver esse filme no cinema mesmo". Sem dúvidas, a experiência de assistir a esse documentário sensorial numa projeção em IMAX se justifica no mesmo segundo em que a jornada começa, elétrica, viva, recheada de emoção, como se estivéssemos decolando sem destino. A imersão é brutal. Não há preparação, introdução, nem vinheta. Brett Morgan nos mergulha numa piscina lisérgica e, a partir de então, não tem mais como sair dela.


"E eu quero ser livre... Você não quer ser livre?", canta em Hallo Spaceboy, canção que nos põe para dentro ainda nos primeiros minutos, já deixando muito claro para a plateia o que podemos esperar do destino. Longe dos depoimentos, negando a cronologia, despreocupado com o impacto histórico, social e midiático de seu protagonista, colocando de lado suas referências, o quê e quem inspirou, este filme não quer nos contar quem é David Bowie, mas o que ele é - na tela, se transforma em pensamentos, filosofia, ele vira o futuro.

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2. Marte Um

Direção: Gabriel Martins (Brasil)

Quando Bolsonaro foi eleito em 2018, ainda quando eu estava ali diante da televisão, fiquei pensando se esse país ainda era meu, se eu, amigos e familiares ainda fazíamos parte dessa nação aparentemente tão fictícia. Apesar de ser publicamente “oficializado” naquele ano, o desastre da sobrevivência não era capítulo novo – do lado de cá, todos fomos testemunhas de um lentíssimo desabamento a olho nu. O que vai sobrar? Mesmo que seja símbolo desse suspense, "Marte Um" é o contrário de um assunto encerrado.


Como filho da Filmes de Plástico, essa história é tão honesta enquanto uma observação íntima – por parte de seu autor, Gabriel Martins – como também num recorte que enriquece a visão coletiva da própria produtora mineira. Assim como Temporada (2018) e A Felicidade das Coisas (2021), Marte Um (2022) é desses filmes raríssimos sobre o Brasil que realmente importa, muito acima das bandeiras, dos hinos, dos PIBs e dos deuses. Se há um Brasil que nunca existiu, que foi sempre "um sonho" – como anuncia Grace Passô em República (2020), também há um que insiste em se manter de pé.

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1. Os Primeiros Soldados

Direção: Rodrigo de Oliveira (Brasil)

“Para de filmar”, pede Suzano na cena em que Massaro nos corta o coração de jeito incontornável, e a imagem se reestabelece. Foi como compartilhar um sonho, um respiro, uma vontade mútua de ser a contramão daquele destino que tantos “soldados” depois dele enfrentaram. Rodrigo de Oliveira, que também é o montador, sabe a medida certa para nos contar essa história tão rendida pelo próprio susto, ao mesmo tempo em que é tão coberta de compaixão e confiança – afinal, esse não é um filme do começo dos anos 2000, correto? Quando o filme se despede sob a voz de Ney Matogrosso nos versos explosivos de Fala, fica encrustada essa epifania de que os tempos seriam outros. Sorrindo e chorando, me veio na cabeça outra imagem de liberdade com o Irandhir Santos rodopiando sob a mesma música no sertão de A História da Eternidade (2014). Me deu uma vontade de sair de casa e tentar ser feliz.

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