• Arthur Gadelha

“Não! Não Olhe!” e um Jordan Peele sem velocidade

CRÍTICA Em seu terceiro filme, Jordan Peele busca dar um passo fora do terror dentro da ficção científica. O texto abaixo, óbvio, contém todos os spoilers possíveis.

Independente do que se ache sobre a carreira de Jordan Peele, é difícil discordar da credibilidade que há no seu pulso pela reinvenção, gesto alimentado como um “contraponto” aos signos que fomos “programados” para reconhecer. Em Corra! (2017) e Nós (2019), sob discussões raciais, éticas e civis da violenta fundação dos EUA, ainda existe um filme que se atém à estrutura dos gêneros – ou seja, reafirmar a forma como vemos esses filmes é justamente a estratégia para decodificarmos o que está para além da forma, ultrapassando o limite da conformidade entre nós e o que está na tela. A obra de Peele, afinal, está longe de um cinema conformado.


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Ao desviar sua câmera da noite habitualmente aterradora para o sol esturricado de um rancho no interior da Califórnia, a forma como somos inseridos nessas imensas paisagens vai causando uma dúvida atraente: Peele está atrás de mexer em quê? No faroeste? No suspense? Será que na ficção científica? A essa altura imagino que o "segredo" já deva ser bastante público pela estratégia reveladora adotada pelo estúdio para levar as pessoas ao cinema. Acho até que faz bem, porque Não! Não Olhe!, surpreendentemente, é um filme de poucas revelações, todas cordialmente bem espaçadas, e por isso de pouco impacto se levarmos em consideração as experiências anteriores.


Quando o mistério “se desfaz”, duas sensações tomaram conta de mim. A primeira é de certa suspensão dada a falta de urgência, mas a segunda é mais charmosa: a de que Peele está tentando fazer a sua própria versão de Os Pássaros (1963) misturado a Sinais (2002), mas levando-a para o futuro com discussões independentes e sem nunca parecer que está se escondendo sobre as coisas que já existem. Diante de toda a memória que carregamos sobre os "filmes de extraterrestres", especialmente nas relações propostas do que seria um contato interestelar, esse novo capítulo de reinvenção de Peele tenta algo novo, e consegue. À medida em que a exibição em IMAX avançava, com o abalo da imagem noturna equivalente a dimensão das diurnas, senti que o cinema era constantemente tomado de certo "uau" coletivo, crescendo os burburinhos sobre o que estávamos todos testemunhando. Ao mesmo tempo em que vários filmes contemporâneos brotavam em mente, de Bird Box a Um Lugar Silencioso, a conclusão era mesmo de que nunca tínhamos visto algo assim.



Muito diferente do que há em A Chegada (2016) ou Contato (1997), o autor transforma esse antigo mistério da humanidade em algo carnal e necessariamente selvagem. É meio desengonçado, especialmente pelo ritmo implorar por uma velocidade que nunca chega, fazendo essa história ter o brilho reduzido pelo tempo que perde dando voltas em torno de uma revelação que já está posta, prestes a explodir, equação que até a trilha sonora ajuda a confundir com inserções pouco emotivas nos momentos mais importantes, oscilando entre o sublime e o banal. Daniel Kaluuya e Keke Palmer se entregam a essa experiência verdade-fantasia e conseguem exprimir dela o que há de melhor: o medo e a coragem, lado a lado, na interpretação de personagens tão diferentes entre si.


Por outro lado, sua velocidade também contribui para essa honesta sensação de novidade dentro de um universo atualmente tão apático do cinema norte-americano, principalmente se repararmos o caminho descartável para qual as ficções científicas caminharam nessa indústria a exemplo de filmes frouxos como Vida (2017) ou A Cor Que Caiu do Espaço (2019). Isso porque ao colidir a crueldade da domação com o apagado pioneirismo negro das imagens em movimento, Não! Não Olhe! cria um contexto que dispensa o aspecto transcendental comum às histórias entre humanos e alienígenas. Está aí a virada de chave. Essa história, afinal, não precisa ser deles.

 
 

Direção: Jordan Peele

Roteiro: Jordan Peele

Produção: Ian Cooper

Música: Michael Abels

Fotografia: Hoyte Van Hoytema

Montagem: Nicholas Monsour

Arte: Samantha Englender

Título Original: Nope

País: EUA

Ano: 2022