• Arthur Gadelha

A Filha Perdida

Traduzir e trair-se na maternidade


CRÍTICA Estreia de Maggie Gyllenhaal investe no suspense para dar à contradição uma camada de afeto

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Referenciada em diversas discussões sobre o processo de tradução literária, a exclamação de Umberto Eco observa esse cuidado em seu gesto inevitável de agressão: "Traduzir é trair". Personagem central na trama escrita por Elena Ferrante, Leda é uma tradutora que está de férias numa pacata cidade litorânea; sozinha e silenciosa, como se num retiro espiritual, ela é assombrada pelo passado quando estabelece um paralelo involuntário à partir dos sentimentos que ainda não entende perto dos 50 anos de idade. Ao encarar o olhar daquela mãe jovem e procurar significados familiares, Leda está, de certa forma, traduzindo sua própria história em conflitos secretos, como se nessa inofensiva traição ela fizesse um presságio infeliz àquelas "pessoas ruins". Alguém ali merecia sentir essa sensação que nem se sabe o nome e nem se sabe se passa?


Construindo um olhar áspero e quieto sobre condições da maternidade, a estreia na direção de Maggie Gyllenhaal é um filme que surpreende por conseguir ir direto ao ponto ao mesmo tempo em que se esconde sob perguntas cada vez mais sem respostas. Mais que a penitência de uma personagem errante, A Filha Perdida se debruça tanto sobre uma melancolia devastadora quanto sobre um mistério existencial, consciente de que essa é uma história cuja tensão gira em círculos.


Os olhares invasivos, as conversas lentas, os gestos, flertes e silêncios, parece que tudo ao redor de Leda está ali para desestabilizá-la, suspendê-la do tempo, equação dramática que Maggie orquestra de forma cuidadosa para manter o fôlego da dúvida. O que realmente está acontecendo entre essas famílias? As personagens se olham como se estivessem fingindo nunca terem se visto na vida, como se finalmente não fosse só Leda buscando se traduzir. Nesse desafio de contrapor histórias, Olivia Colman e Dakota Johnson são a alma de todos os pensamentos espinhosos apresentados numa longuíssima cerimônia de ameaças não ditas.


Olivia, principalmente, está num ponto da carreira que parece estar apresentando seu papel mais importante à cada novo filme. Vindo de A Favorita (2018) e Meu Pai (2020), sua presença aqui é sufocante de tão próxima que sua personagem fica de nossas aflições e dúvidas - do sorriso envergonhado ao choro constantemente engasgado, a iminente sensação de que alcançará seu limite na tarefa de fingir que tudo está bem. Na sequência do cinema, por exemplo, a interpretação do caos contido surge como síntese dessa frustração que ela luta para não tomar conta de si. Nessa abordagem misteriosa, Maggie acerta ao apresentá-la desse jeito muito antes de conhecermos um terço de seus sentimentos, medos e orgulhos.



Apesar dos saltos no tempo deixarem o filme convencional e de uma previsibilidade narrativa fora de sintonia com os segredos do presente, há momentos charmosos desse trecho constante que dão ao conflito um volume de emoção - principalmente pela presença fria e distante de Jessie Buckley que faz de Leda uma personagem quase uníssona. A escolha por não intervir na fotografia também proporciona essa leitura de que passado e presente estão em mesmo grau de existência, mesma cor, mesmo olhar, à espelho da tradução traída que Leda faz de sua própria vida. Hélène Louvart, fotógrafa de outros filmes com mulheres tão complexas quanto, como A Vida Invisível (2019), Murina (2020) e Lazaro Fellice (2018), entra na orquestra de Maggie para estender essa comparação na medida do suspense, fazendo essas histórias se sobreporem no mesmo sentimento em que se separam.


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Assustada do começo ao fim, a tensão que pulsa no olhar de Olivia Colman vai revelando não ter relação direta com as intimidações que sofre naquele ambiente tão paradisíaco quanto hostil, mas com uma ansiedade quase alheia. "Sou uma pessoa muito egoísta", ela diz para Nina como se fosse mais uma repetição do que uma mera constatação própria, dando a essa história seu elemento de maior surpresa e honestidade. Provando a inversão do próprio título, mesmo penitente e quase trágico, A Filha Perdida emociona e assusta ao passo em que nunca deixa de ser um filme misteriosamente carinhoso.

Direção e Roteiro: Maggie Gyllenhaal

Fotografia: Hélène Louvart

Montagem: Affonso Gonçalves

Música: Dickon Hinchliffe

Desenho de Produção: Monica Sallustio

Música: Dickon Hinchliffe

Elenco: Olivia Colman, Jessie Buckley, Dakota Johnson

Ed Harris, Peter Sarsgaard

País de Produção: EUA, Grécia

Ano de Lançamento: 2021