• Arthur Gadelha

Os Primeiros Soldados

No suspense da Aids, um filme de hoje


CRÍTICA 25ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES Voltando 40 anos no tempo, Rodrigo de Oliveira retoma o pavor da negligência institucional em paralelo ao luto e à esperança dos que resistiram

Olhando para as ficções já feitas ao redor do mundo sobre o impacto da AIDS, parece imprópria a tarefa de compará-las com este novo filme do Rodrigo de Oliveira. Isso porque diferente deles, Os Primeiros Soldados não obriga seu tema à superexposição burocrática ou a uma caracterização redutiva do caos que a então epidemia causou, mas permite que outras sensações respirem pela liberdade com que o autor encara a própria linguagem da “ficção”.


Escolhendo a Vitória (ES) de 1982 como contexto tempo-espacial de partida, a trama situa seus personagens em torno dos primeiros suspenses a respeito da doença numa ponte Europa-Brasil sem muitos conhecimentos. Suzano, interpretado por Johnny Massaro, começa a sentir as mudanças no corpo e prefere se isolar com um grupo de amigos para atravessarem juntos a primeira e assustadora onda do vírus.


Mesmo tendo um protagonista bem desenhado como tal, a primeira irreverência desse filme é conseguir construir emoções genuínas ao redor dando o devido espaço para as outras costuras desse enredo sem que pareçam meros coadjuvantes. Renata Carvalho, que vive a amiga Rose, é de uma eletricidade impressionante, revestindo sua personagem de carinho e temor em momentos tão distantes e primordiais para o tom de luto e persistência que justifica a existência contemporânea dessa história. Em paralelo, Vitor Camilo (como o amigo cinegrafista Humberto) e Clara Choveaux (como a irmã enfermeira Maura), protegem seus personagens de grandes exposições para nos emocionar no momento certo.



A segunda irreverência é a missão de fazer desse filme um exercício quase metalinguístico. Também diferente de viradas de ponta-cabeça em estética e ritmo que acontecem em filmes como As Boas Maneiras (2017) ou Ferrugem (2018), a mutação aqui é também em direção ao passado quando Lucas Barbi desliga sua fotografia sóbria para deixar que o filme se torne literalmente do trio de amigos na reprodução fabular de gravações que fizeram na esperança de testemunharem uma cura independente e milagrosa. Nesse vai-e-vem estético, Joyce Castello, Khalil Rodor e Roger Ghil também cativam com uma direção de arte e figurinos que nunca perdem a sintonia de um tempo tão crucial para a forma como entendemos a cultura pop nos dias de hoje.


“Para de filmar”, pede Suzano na cena em que Massaro nos corta o coração de jeito incontornável, e a imagem se reestabelece. Foi como compartilhar um sonho, um respiro, uma vontade mútua de ser a contramão daquele destino que tantos “soldados” depois dele enfrentaram. Rodrigo de Oliveira, que também é o montador, sabe a medida certa para nos contar essa história tão rendida pelo próprio susto, ao mesmo tempo em que é tão coberta de compaixão e confiança – afinal, esse não é um filme do começo dos anos 2000, correto? Quando o filme se despede sob a voz de Ney Matogrosso nos versos explosivos de Fala, fica encrustada essa epifania de que os tempos seriam outros. Sorrindo e chorando, me veio na cabeça outra imagem de liberdade com o Irandhir Santos rodopiando sob a mesma música no sertão de A História da Eternidade (2014). Me deu uma vontade de sair de casa e tentar ser feliz.

 
 

Direção e Roteiro: Rodrigo de Oliveira

Produção Executiva: Maria Grijó Simonetti,

Ursula Dart, Vitor Graize

Assistente de Direção: Carol Covre

Direção de Produção: Melina Leal Galante

Montagem: Rodrigo de Oliveira

Fotografia: Lucas Barbi

Direção de Arte: Joyce Castello

Figurino: Khalil Rodor, Roger Ghil

Som Direto: Hugo Reis

Mixagem: Tiago Bello

Edição de Som: Hugo Reis

Trilha Sonora: Giovani Cidreira

Elenco: Johnny Massaro, Renata Carvalho,

Vitor Camilo, Clara Choveaux,

Alex Bonini, Higor Campagnaro

País: Brasil

Ano de Lançamento: 2021

Essa crítica faz parte da cobertura da

25ª Mostra de Cinema de Tiradentes