• Arthur Gadelha

Licorice Pizza ou o cativante legado de Paul Thomas Anderson

ENSAIO CINEMA Concorrendo ao Oscar 2022 de filme, direção e roteiro, uma história que condensa o que há de mais charmoso em seu cinema

Ao longo desses consagrados 26 anos, o cinema de Paul Thomas Anderson vem observando – e nunca do mesmo jeito – a ironia ora cômica ora trágica de um mundo constantemente desastroso. Nessa equação, até aquilo que parece ser defeito é incorporado; seja na overdose das descobertas, seja na oposta indiferença a complexidade quase terceirizada de seus personagens: tudo, até mesmo o ritmo brincalhão e incessante, aponta para uma irreverência bastante incomum no cinema norte-americano – um cinema que quando não refém dos blockbuster, deixa-se cultivar pelas “marcas registradas” de um “cinema de autor pop”. PTA está ali no meio: não é uma Kelly Reichardt tampouco um Tarantino.


Paul, como sempre esteve claro, não faz filmes "por encomenda" e talvez até por isso alguns deles pareçam continuações um do outro, mesmo que todos sejam assustadoramente diferentes entre si – os pupilos apadrinhados e arruinados em Jogo de Risco (1996), Boggie Nights (1997) e O Mestre (2012); ou as brutalidades dos distintos personagens de Daniel Day-Lewis em Sangue Negro (2007) e Trama Fantasma (2017); os amores entalados em Magnólia (1999) e em Vício Inerente (2014) – este último talvez seu filme mais confuso, mas que se aproveita disso pra ser quase uma comédia quando pode.


O que liga todas essas tramas para além da competência de uma direção de cena harmoniosamente coreografada e da densidade honesta de suas histórias? Ciente de que produz um cinema grosseiramente masculino, PTA porém evita promover culto numa contraditória jornada para defender sua manutenção. Circulado pelas fantasias de tesão, desejo e poder, seus homens são indecisos, inconstantes, orgulhosos e traiçoeiros, fadados à própria falência; “os homens não prestam”, anuncia o Frank do Tom Cruise com um pingo de crença e outro pingo de revolta.


São filmes amorosos? Aí vai de cada um, a princípio esquecendo que o delicioso Embriagado de Amor (2004) represente algo para além da paródia de um Adam Sandler "levado seriamente na brincadeira". Será que não é por essa lacuna extrovertida sempre sugerida que surge Licorice Pizza? Esse, afinal, o mais objetivo, ritmado, talvez o único sobriamente radiante da carreira, é inquestionavelmente um filme amoroso, daqueles que nós e o cinema americano há muito tempo estávamos carente e não sabíamos a quem pedir – PTA foi lá e fez.



Quando começa, o filme vai tão direto ao ponto que engana. Gary e Alana travam uma conversa e, subitamente, um se interessa pelo outro – as dúvidas surgem: será que estou diante do primeiro “sessão da tarde” de um cineasta que se acomodou nas esferas do romance ingênuo? Claro, eu deveria ter percebido o quão inverossímil era esse pensamento. Aos poucos, porém, a paixão entre um garoto e uma mulher vai se transformando numa odisseia pelas sensações, eventos, surpresas e emoções daquele pedaço da Califórnia nos anos 1970. Mais que o relato de um romance, o filme se destrincha de forma abertamente episódica, como se ofertasse um mural de “pequenos” gestos nostálgicos.


Para embalar com emoção, Licorice Pizza consegue ser musicalmente até mais cativante do que Boggie Nights; de David Bowie a trilha original de Johnny Greenwood, contribuindo com o tom ora real ora sonhador que exala do casal protagonista. Alana Haim e Cooper Holfman, como Alana e Gary, conduzem essa paixão irreverente de forma tão cuidadosa e real, que me soa bastante difícil procurar um exemplo semelhante de outros filmes – os personagens e suas performances são inesquecíveis.


Com pouco mais de duas horas, o filme corre constantemente o risco de se exceder e passar a sensação de estar entupido – coisa que sinto especialmente em toda a sequência que envolve o personagem do Sean Penn, enxertada ali para proporcionar uma reaproximação instintiva de seus protagonistas. As demais, porém, brilham ao redor: as hilárias ameaças do Jon Peters, a crise do petróleo, o conflito social do prefeito, os investimentos constantemente recalculados pelas promessas de negócios do futuro. Este não é um filme comum, retirado dos algoritmos coming-of-age, principalmente por uma autonomia charmosa de tudo que vai surgindo. A sequência do caminhão desligado, por exemplo, é de uma competência admirável, operando quase que paralelamente ao projeto do enredo e pontuando as aflições que vemos, e as invisíveis, sem precisar falar nada.


Engatando todas essas ações, o trabalho de arte e figurino é um deleite à parte, imergindo o espectador nessa cidade que é atraente aproximando-se tanto de um olhar fiel, quanto de uma visão quase lúdica (suponho que todos tenham visto o batmóvel passeando na frente da câmera como quem não quer nada). No intuito de materializar uma felicidade que se mantém viva apesar das ameaças, Licorice Pizza consegue ser especial mesmo sem promessas, mesmo tão simples, como uma junção inofensiva, e em certo grau até cômoda, de tudo aquilo que consagrou seu diretor como um contador de histórias gravemente urbanas - e o melhor, sem precisar reciclar absolutamente nada.