• Arthur Gadelha

Retrospectiva 2021: Os 10 filmes que decepcionaram

Chegou a hora da lista ingrata

É a vez da lista ingrata que eu nem costumo fazer mas que especialmente este 2021 colaborou: os filmes que me decepcionaram - a maioria deles aqui com boas ideias, mas feitos de forma repetitiva, vazia ou sem coração. Falar sobre filmes que achamos ruins é respeitar o cinema tanto quanto falar sobre os que achamos bons, principalmente porque expõe a forma como pensamos diferentes.

 

10. A Nuvem Rosa

Direção: Iuli Gerbase (Brasil, RS)

Vai ser difícil encontrar um texto sobre esse filme que não comece pela óbvia relação com a nossa realidade. Para anunciá-lo como vencedor do 25º Festival Internacional de Sofia, o júri explicou que esse é "um filme que se situa onde nós mesmos estamos". Afinal, a história de uma nuvem assassina que exige o isolamento social imediato poderia soar como uma pífia metáfora sobre a pandemia da Covid-19 e seu impacto sobre as sociedades ao redor do planeta. Sabendo disso, uma breve cartela de texto anuncia a coincidência antes que qualquer uma dessas informações cheguem à tela, ação que acaba condicionando a experiência fabular da obra à essa dualidade de forma inevitável. Leia a crítica

 

9. Ahed's Knee

Direção: Nadav Lapid (Israel)

No fim, esse experimento é apenas um cineasta, certo de sua identidade, flertando repetitivamente com as ameaças de uma explosão do próprio cinema – então a câmera balança sempre quando pode, desenquadrando, pendente, intimidante, procurando uma fuga. Em outro contexto, isso lembra sua proposta caótica no charmoso Synonymes (2019), onde um estrangeiro se põe como tal também na subjetividade da própria câmera que “não está ali”. Aqui, claro que essa dinâmica de um autor transpirando pela própria ferramenta seria incrível se não fosse lançada dessa forma, sem mais nada para sustentar ao redor. Leia a crítica

 

8. 007: Sem Tempo para Morrer

Direção: Cary Joji Fukunaga (EUA)

Quando os nomes Spectre e Blofeld surgem mecanicamente na boca de James Bond, a desconfiança é imediata diante dos motivos de ser esta a história a se despedir do robusto Daniel Craig como o espião mais famoso do cinema mundial. Se a frágil criatividade desse pedaço de saga (enquanto franquia) foi posta à prova em Quantum of Solace e engasgada no capítulo quatro que buscou justificar todos os vilões sob o mesmo ponto de vista, não poderia ser mais frustrante descobrir que este filme faria o mesmo para dimensionar sua importância. Ao invés de uma aventura com novos desdobramentos para honrar a diversidade de missões de Bond, o roteiro escrito a quatro mãos (Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga e, curiosamente, Phoebe Waller-Bridge que não parece contribuir com nenhum frescor que tenhamos sido apresentados em seus trabalhos anteriores) escolhe fazer o mesmo filme de novo. Leia a crítica

 

7. Jesus Kid

Direção: Aly Muritiba (Brasil)

Uma brincadeira de roteiro feita com muita brincadeira, mas sem fôlego. Tudo se esgota rápido, apesar das presenças de Paulo Miklos e Sérgio Marone. Não surpreende que, comicamente, tenha vencido o Kikito de Melhor Roteiro no 49º Festival de Gramado.

 

6. Eternos

Direção: Chloe Zhao (EUA)

Qual a proposta de Eternos? É uma pergunta até envolvente cuja resposta vai sendo refeita exaustivamente ao longo das imensas 2 horas e 37 minutos dessa viagem que, mais uma vez, depende de uma espécie de “viagem no tempo” para articular sua estrutura de revelações e reviravoltas. Mas ao fim da jornada, em meio a todas as frustrações e descrenças em torno da ação, sobram as ideias que tornaram essa proposta aparentemente diferenciada dentro do que se entende pelo Universo Marvel: com Chloé Zhao na direção, cineasta de filmes introspectivos, porém não menos emocionantes, a ideia parece dar corpo a uma "saga de equipe" sem que a ação fosse um elemento realmente definidor – ou seja, para fugir das comparações com Vingadores ou X-Men, um "filme de time" que se permitisse à contemplação. É uma equação, porém, nada justa. Leia a crítica

 

5. Veneza

Direção: Miguel Falabella (Brasil)

Sem muito comentário a ser feito aqui, infelizmente, apesar de todo brilho que se possa esperar de Carmen Maura estar estrelando um filme do Miguel Falabella. Ao mesmo tempo, é também o tipo de trama que se esperaria do Miguel, um roteirista de talento na televisão brasileira mas que está apegado a lugares-comuns do humor que não convencem mais. Uma pena. Além de Carmen, grande presença de Dira Paes e até mesmo do sumido Eduardo Moscovis.

 

4. Vacío

Direção: Paul Venegas (Equador)

Discutindo imigração, clandestinidade e conflitos sociais atrelados, esse filme do Paul infelizmente não me parece dar conta da consistência de seus personagens e ações. A pincelada nas questões de gênero então, soam inoportunas e grosseiras. Visto no 31º Cine Ceará.

 

3. Tempo

Direção: M. Night Shyamalan (EUA)

Tempo é, apesar de tudo, um filme honesto. Se soam grosseiras as reflexões sobre a negligência em relação a nossa finitude, a lógica estrutural soa também como seu elemento principal - e indissociável - quando obra e artista são vistos de longe. Afinal, não há porque se assustar verdadeiramente com isso após filmes tão burocráticos como Fim dos Tempos (2008) e Vidro (2019). Para alguns, porém, também não é possível ignorar o cansaço que essas experiências acometem diante de uma frustração do próprio tempo: se ele já escreveu histórias tão referenciais como A Vila (2004), O Sexto Sentido (1999) e Sinais (2002), o Shyamalan de hoje se parece apenas com uma versão alternativa do já citado Christopher Nolan - só que, evidentemente, uma versão muito mais saborosa. Leia a crítica

 

2. Mainstream

Direção: Gia Copolla (EUA)

O incômodo principal é que as ideias são grosseiras, como a própria jornada de ascensão e queda no mundo virtual do No One Special. Para ter uma narrativa abertamente sarcástica, Copolla parece se orgulhar de uma observação que é reducionista pela mera exploração do caricato, como se isso valesse por si só. Tem suas peculiaridades corajosas, óbvio, e acredito que é por aí que quem curtiu essa viagem começará para defendê-lo: a necessária afirmação do maniqueísmo, a terra sem lei que constrói "debates públicos" do nada. Essa desordem é como conviver com a contradição (da mídia) de criticar o discurso enquanto o é... Pode ser que tenha um bom filme aí. E, honestamente, até o fato de eu não ter suportado esse filme compõe o motivo do seu orgulho em ser desse jeito tão brutal - e ridiculamente tolo. Leia a crítica

 

1. Casa Gucci

Direção: Ridley Scott (EUA)

O amor súbito entre Maurizio e Patrizia se constrói num estalar de dedos, assim como os saltos temporais são trazidos constantemente como se atendessem a um conceito dinâmico nunca efetivo. Então a história vai caminhando aos tropeços sem que nada, nem ninguém, pareça importar para quem filma, atua ou assiste, dando cara e corpo a um filme vazio. Enquanto Adam Driver está sempre desconfortável sob a classe dos ternos e óculos largos e a performance egocêntrica de Jared Leto se prova tão boba quanto seu personagem, a maior escanteada aqui é Lady Gaga que não consegue dar vida própria a um texto já engessado no papel. Por fim, a sensação mais frustrante de Casa Gucci é que as obsessões desse assassinato, tão dramáticas por si só, são desperdiçadas numa história que atropela a si mesma para avançar sem se dar conta do caos que cria. Crises financeiras, jogos políticos, dramas familiares, dúvidas no relacionamento e, principalmente, as potenciais ambiguidades que Maurizio e Patrizia poderiam ter individualmente... tudo é jogado num triturador sem o menor cuidado, resultando num filme que nem diverte, nem intriga, mas que nos abandona com um sentimento desolador de indiferença. Leia a crítica