• Arthur Gadelha

A Nuvem Rosa: poder digestivo do presságio

CRÍTICA Escrito em 2017 e filmado em 2019, o primeiro longa-metragem de Iuli Gerbase assusta pela coincidência com o mundo pandêmico

Vai ser difícil encontrar um texto sobre esse filme que não comece pela óbvia relação com a nossa realidade. Para anunciá-lo como vencedor do 25º Festival Internacional de Sofia, o júri explicou que esse é "um filme que se situa onde nós mesmos estamos". Afinal, a história de uma nuvem assassina que exige o isolamento social imediato poderia soar como uma pífia metáfora sobre a pandemia da Covid-19 e seu impacto sobre as sociedades ao redor do planeta. Sabendo disso, uma breve cartela de texto anuncia a coincidência antes que qualquer uma dessas informações cheguem à tela, ação que acaba condicionando a experiência fabular da obra à essa dualidade de forma inevitável.


Para intensificar a permanência de algo que se supôs ser passageiro, a trama gira em torno de Giovanna e Yago, casal que se conheceu na noite anterior para um lance temporário sem qualquer perspectiva real de que fizessem parte da vida um do outro. Então essa história de dois desconhecidos forçados a conviver por tempo indeterminado vai se construindo como uma crônica bastante urbana sobre desencontros, destinos familiares, efemeridade das relações e as intimidantes decisões sobre o que significa encarar o futuro. Apesar desse leque de reflexões fascinantes, A Nuvem Rosa tem realmente muito pouco a dizer.


Optando por não construir qualquer tensão entre as passagens do tempo e as transformações psicológicas sobre as condições da clausura, o roteiro atrelado às performances discretas de Renata de Lélis e Eduardo Mendonça entregam ao filme um tom monótono do qual ele não se aproveita para criar um possível subtexto de "dormência" sobre conviver com a tragédia. Avançando sobre o conflito de forma fria, as circunstâncias de temor e solidão se desgastam rapidamente sem que sejam superadas por novas perspectivas ou dúvidas. Essa sensação passiva é reforçada nos momentos que propõem algum tipo de ruptura, como na brevíssima discussão sobre o desejo de se ter um filho, na separação ou na epifania final, acontecimentos que expõem um texto que depende da emoção contida mais na ideia do assunto do que na sua apresentação e desenvoltura.



Por outro lado, a condução é esperta na forma como entranha o isolamento de duas pessoas distintas dentro do mesmo apartamento. Alinhada com a fotografia de Bruno Polidoro e a trilha original de Caio Amon, a direção de Iuli Gerbase concebe essa coexistência de forma sufocante numa cenografia que poderia soar constantemente repetitiva. Apesar de perder o fôlego à medida em que se expande com poucos elementos, A Nuvem Rosa ainda é um filme valioso pela introspecção literal e subjetiva que oferece para os espectadores desse 2021 recheado de promessas vazias.


Embora o exercício da nossa quarentena, em 2020, tenha sido sucateada pelo Governo Federal e por isso pouquíssimo respeitada por uma sociedade desamparada de garantias, muitos dos diálogos entre Giovanna e Yago lembram pensamentos nossos enquanto uma civilização condenada a assistir um vírus decretar caos ao mundo. Diferente dessa inquietação global, a história de Gerbase alheia ao lugar que "nós mesmos estamos" se dedica à aflição sobre o lado de dentro, proposta narrativa para uma curiosa intimidade: o que passava em nossas cabeças para além do rastro de morte e negligência? Pensamos nas nossas famílias e sonhos deixados para trás? No fim das contas, o "poder" desse filme não está nas tensões ou conclusões, mas no imprevisível presságio das perguntas.

★★★★★

Direção e Roteiro: Iuli Gerbase

Produção: Patrícia Barbieri

Direção de Fotografia: Bruno Polidoro

Montagem: Vicente Moreno

Direção de Arte: Bernardo Zortea

Trilha Sonora Original: Caio Amon

Elenco: Renata de Lélis, Eduardo Mendonça, Helena Becker, Girley Paes