• Arthur Gadelha

Eternos: a experiência míope da aventura

CRÍTICA Com ousada escalação da vencedora do Oscar Chloé Zhao, a aguardada introdução em uma nova saga de heróis se arrisca para fugir da comparação

Qual a proposta de Eternos? É uma pergunta até envolvente cuja resposta vai sendo refeita exaustivamente ao longo das imensas 2 horas e 37 minutos dessa viagem que, mais uma vez, depende de uma espécie de “viagem no tempo” para articular sua estrutura de revelações e reviravoltas. Mas ao fim da jornada, em meio a todas as frustrações e descrenças em torno da ação, sobram as ideias que tornaram essa proposta aparentemente diferenciada dentro do que se entende pelo Universo Marvel: com Chloé Zhao na direção, cineasta de filmes introspectivos, porém não menos emocionantes, a ideia parece dar corpo a uma "saga de equipe" sem que a ação fosse um elemento realmente definidor – ou seja, para fugir das comparações com Vingadores ou X-Men, um "filme de time" que se permitisse à contemplação. É uma equação, porém, nada justa.


O que acontece aqui, principalmente, é que a dimensão do contexto desses personagens milenares nunca parece ser algo palpável, seja pela imersão superficial na personalidade de cada um desses “eternos”, seja pelos conflitos que a história de Ryan e Kaz Firpo os entope para discutir seus sentimentos, subtexto que não encontra qualquer emoção em mais uma corrida para salvar o mundo. Contada num vai-e-vem de tempos, relatos e explicações, essa história de manutenção do universo é apresentada sem intensidade.


O plano, que já soava genérico por si só, perde-se ainda mais quando é resolvido numa sequência de ação conturbada pelos cortes que não buscam equilíbrio em nada ao redor: nem na movimentação frenética dos personagens, nas linhas douradas da computação gráfica e nem mesmo na trilha sonora fora de tom do geralmente ótimo Ramin Djawadi. É um emaranhado de desequilíbrios que tenta não parecer com nada que tenha sido feito nos clímaces da Marvel até aqui, mas que por outro lado não encontra qualquer sintonia própria para além do pôr-do-sol eterno. O desfecho em si da confusão, com direito a um deus-ex-machina que pode nos levar à memória do “Momento Martha” em Batman vs Superman ou do amor transcendental de Interestelar, só reafirma a fragilidade de uma proposta sem pulso.



Mesmo diante dessas ausências, Eternos ainda se sustenta por algumas atuações que fazem de seus momentos motores para a existência emocional dessa missão tão sensível de critérios. Chave para os acontecimentos em série, a presença de Gemma Chan como Sersi é um fio condutor que convence, apesar de seu “parceiro de cena” Richard Madden não contribuir muito além de uma feição robusta que se mantém imóvel até mesmo quando se torna o objeto central de tensão – o que também escanteia, por uma má confiança de roteiro, a personagem de Lia McHugh. Também é uma pena que Brian Tyree Henry e Barry Keoghan sejam tão mal aproveitados, apesar de claramente dispostos aos movimentos de uma história que não sai do lugar. Numa irregularidade semelhante, Salma Hayek e Lauren Ridloff também contribuem o suficiente para que os rumos não se percam na falta de emoção em que o filme vai se entregando à medida em que se complica.


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Mirando a contemplação na confiança das imagens e dos diálogos em defesa da humanidade, Chloé Zhao e sua equipe criativa de roteiro, montagem e direção dão a essa aventura um olhar míope, buscando perceber a potência de elementos promissores de forma tão isolada, que a visão do todo soa não apenas bagunçada, mas quase que totalmente desinteressante – para um filme de heróis míticos milenares, isso é quase uma tragédia. Bagunça por bagunça, porém, Eternos é pelo menos mais charmoso que os três últimos filmes da quadrilogia caótica e sem graça dos reverenciados vingadores.

★★

Direção: Chloé Zhao

Roteiro: Chloé Zhao, Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo

Música: Ramin Djawadi

Fotografia: Ramin Djawadi

Edição: Dylan Tichenor e Craig Wood

Figurino: Sammy Sheldon

País de Origem: EUA

Ano de Lançamento: 2021