• Arthur Gadelha

Tempo: Shyamalan, uma contradição artificial

CRÍTICA Apesar de tudo, o novo filme de M. Night Shyamalan é honesto o suficiente diante do que é o seu cinema hoje

Faz um bom tempo que o cinema de M. Night Shyamalan abriu mão de qualquer sutileza como se fosse uma estratégia crucial para entregar ao roteiro seu valor de mistério e revelação. Entre A Dama na Água (2006) e A Visita (2015), suas histórias dependem de uma exposição grosseira das informações para dar corpo aos rumos possíveis, como uma experimentação de faculdade que precisa provar ser um roteiro engenhoso. Tal qual Christopher Nolan se achando genial com os cálculos temporais de Interestelar (2014) ou com as regras dimensionais do sonho em A Origem (2010), é Shyamalan com as metáforas da natureza ameaçada, das construções fabulares ou familiares. Por outro lado, o que esses seis filmes calcificaram foi a obviedade como uma metáfora metalinguística de que ele é um cineasta com propriedade e fé, independentemente se suas histórias soarão bobas ou frágeis. É o que ele conta e sua forma de contar.


O que Shyamalan faz em Old (2021) não é muito diferente dessa contradição. Baseado na HQ francesa Castelo de Areia, de Pierre Oscar Levy e Frederik Peeters, a trama acontece numa praia privada onde condições naturais, e desconhecidas, fazem com que qualquer organismo vivo envelheça de forma súbita. Na pele de Gael Garcia Bernal e Vicky Krieps, um casal à beira da separação que decidiu proporcionar um último momento de diversão em família com os dois filhos antes de anunciar os novos rumos de suas vidas. "Aproveite seu tempo com a gente", anuncia um cartaz do hotel ainda na entrada, sugerindo que essa será a reflexão com maior evidência na trama: o que fazemos com o tempo?


Há ideias e momentos muito bonitos aqui, mas o cerne da trama é apresentado de forma sempre mecânica, fazendo com que a racionalização imposta se sobreponha às emoções e reações diante de tudo o que está acontecendo. Se a percepção do tempo já é um elemento naturalmente pouco digestivo para se narrar no cinema, Shya o faz com uma cerimônia épica escassa de qualquer mensagem para além do que já é possível refletir com meia hora de filme.


Essa sensação vai se confirmando à medida em que a teia de personagens parece ter sido montada como os equipamentos entregues premonitoriamente por Jerry em cada nova missão das Três Espiãs Demais: o atuário se perde nas contas, o médico que não pode curar, a trabalhadora de museu que opina sobre decomposição, o nadador que se aventura, a narcisa que se assusta com o corpo velho. As peças se encaixam de forma tão objetiva que o quebra-cabeças soa ainda mais artificial do que parece, porque além do fato tem a forma como são apresentados. Para Shya está tudo bem, pois é exatamente isso que faz orgulhosamente em A Dama na Água para relacionar seu trabalho ao criador de fábulas - paixão que, claramente, sobrevive de percepções distintas entre a beleza e a tolice.


O momento chave para o casal Guy e Prisca, por exemplo, é umas das preciosidades onde a beleza do "desfecho" soa charmosa o suficiente para que continue existindo após o filme e que a questão dita principal, sobre tempo, família e amor, soe bela sem cair na caricatura. A fotografia de Mike Gioulakis é responsável por fazer desse momento dramático também um momento de suspense, ajudando tanto a maquiagem quanto a direção de Shya que às vezes sabe o que não revelar. Se a performance de Gael Garcia Bernal não é muito significativa, a de Vicky Krieps se sobrepõe e sustenta a emoção junto às expertises de Alex Wolff e Thomasin McKenzie que impedem o ridículo de chegar à tela.


Mas se a estrutura apática é banhada de substância nesse momento, no seguinte voltamos à estaca zero. Provavelmente para dar exclusividade de sua história perante a HQ original, o drama se inverte no fim da trilha para respostas que rememoram toda a artificialidade. Encerrando o conflito num estalar de dedos, trama e resolução se atropelam afogando as emoções num copo d´água - o que é uma pena, pois o gancho em torno da nova existência de Trent e Maddox tem uma dimensão visivelmente potente.


Tempo é, apesar de tudo, um filme honesto. Se soam grosseiras as reflexões sobre a negligência em relação a nossa finitude, a lógica estrutural soa também como seu elemento principal - e indissociável - quando obra e artista são vistos de longe. Afinal, não há porque se assustar verdadeiramente com isso após filmes tão burocráticos como Fim dos Tempos (2008) e Vidro (2019). Para alguns, porém, também não é possível ignorar o cansaço que essas experiências acometem diante de uma frustração do próprio tempo: se ele já escreveu histórias tão referenciais como A Vila (2004), O Sexto Sentido (1999) e Sinais (2002), o Shyamalan de hoje se parece apenas com uma versão alternativa do já citado Christopher Nolan - só que, evidentemente, uma versão muito mais saborosa.

★★★★★

Direção e Roteiro: M. Night Shyamalan

Fotografia: Mike Gioulakis

Música: Trevor Gureckis

Edição: Brett M. Reed

Som: Matthew Nicolay

País de produção: EUA

Ano de lançamento: 2021