• Arthur Gadelha

Casa Gucci

Fora de sincronia, a obsessão não significa nada


CRÍTICA Uma das grandes apostas da MGM ao Oscar 2022, segundo filme de Ridley Scott lançado neste ano funciona no piloto automático

Das muitas coisas, boas e más, que se vêm dizendo sobre esse novo filme do Ridley Scott, a que mais me intriga é o comentário em looping de que o elenco está todo em dessintonia, cada um fazendo um filme diferente. Gosto desse ponto de vista porque resume na prática o maior problema de Casa Gucci, que nem são seus instrumentistas, mas o maestro que, ao contrário de sua função, parece incentivar a falta de acordo para compor uma bagunça interminável de quase três horas. Assim como na abordagem caótica das atuações, existem vários outros filmes acontecendo nesse trajeto, mas nenhum deles com identidade; sem ciência do que procura construir entre humor e drama, as peças são lançadas pelo tabuleiro na confiança de que o jogo se jogue só.


De forma geral, é uma pena, claro. Como segundo filme "protagonizado" por Lady Gaga após o estouro de Nasce Uma Estrela (2018), esse era o espaço que ela tanto buscava ter em Hollywood para se firmar como uma das peças fixas da engrenagem. Vendo de forma mais objetiva, porém, esse experimento desnorteado é apenas irresponsável – direção, montagem e roteiro engasgados tentam criar um filme no piloto automático e o resultado é uma história desengonçada, sem ritmo, oca, sem uma gota de sentimento. “Quais são suas intenções?”, pergunta de Rodolffo para Patrizia que Ridley Scott talvez não conseguisse responder honestamente.


Sem esconder ambições, a trama busca dar conta de todo o período em que Maurizio Gucci e Patrizia Reggiani tiveram suas vidas interligadas, do primeiro encontro numa festa até o momento em que ela encomenda seu assassinato e, literalmente em seguida (num salto tenebroso), é condenada. Só por essa sinopse podemos supor inúmeras nuances e gradações na transição desses sentimentos tão inversos, mas nada disso chega na tela, principalmente pelas promessas de uma abordagem camp, humorada, episódica, intenção que também não respinga para além do que Gaga tenta fazer sozinha. Casa Gucci nunca se torna um filme extrovertido ou brincalhão, como Eu, Tonya (2017), por exemplo, mas também nunca se beneficia de ser sempre um filme frio, sisudo, e por isso quase robótico na condução dos acontecimentos e das performances.



O amor súbito entre Maurizio e Patrizia se constrói num estalar de dedos, assim como os saltos temporais são trazidos constantemente como se atendessem a um conceito dinâmico nunca efetivo. Então a história vai caminhando aos tropeços sem que nada, nem ninguém, pareça importar para quem filma, atua ou assiste, dando cara e corpo a um filme vazio. Enquanto Adam Driver está sempre desconfortável sob a classe dos ternos e óculos largos e a performance egocêntrica de Jared Leto se prova tão boba quanto seu personagem, a maior escanteada aqui é Lady Gaga que não consegue dar vida própria a um texto já engessado no papel.


Por fim, a sensação mais frustrante de Casa Gucci é que as obsessões desse assassinato, tão dramáticas por si só, são desperdiçadas numa história que atropela a si mesma para avançar sem se dar conta do caos que cria. Crises financeiras, jogos políticos, dramas familiares, dúvidas no relacionamento e, principalmente, as potenciais ambiguidades que Maurizio e Patrizia poderiam ter individualmente... tudo é jogado num triturador sem o menor cuidado, resultando num filme que nem diverte, nem intriga, mas que nos abandona com um sentimento desolador de indiferença.

 
 

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Becky Johnston e Roberto Bentivegna

Fotografia: Dariusz Wolski

Música: Harry Gregson-Williams

Montagem: Claire Simpson

Ano de Lançamento: 2021

País: EUA