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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Vitória de ‘Oppenheimer’ no Oscar e a culpa pelo massacre do povo palestino

Entre mea culpa do passado e negligência do presente, celebração deveria desblindar os EUA da culpa que têm na perpetuação do massacre



Ao receber seu Oscar por ‘Zona de Interesse’, filme sobre uma família nazista que tem no seu quintal um muro que os separa do campo de concentração de Auschwitz, Jonathan Glazer declarou que seu filme foi feito “para nos confrontar no presente”. Ao invés de só olhar a crueldade do passado, olhar “o que estamos fazendo agora”. No fim da noite, o principal Oscar da cerimônia foi para um filme que, muito diferente do seu, só quer olhar o passado.


Oppenheimer” tem ao centro um personagem perigoso: Robert Oppenheimer, chamado de “pai da bomba atômica”. O filme toca num tema espinhoso para as contradições que pairam a lógica de guerra dos EUA: as bombas de urânio e plutônio lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 assassinando mais de 200 mil pessoas. Celebrado na época, o massacre há muito tempo é visto com outros olhos. Ao não precisar uma defesa do cientista e de sua criação, o filme aborda essa discussão numa perspectiva mais próxima da neutralidade do que de uma posição propriamente crítica. Oppenheimer “se frustra” com um destino óbvio dado ao seu projeto, e o filme fica numa posição silenciosa que transforma seu vilão quase num anti-herói, perseguido ideologicamente por aquele que se torna o grande inimigo: o governo genocida dos EUA. Não ele.


A celebração no Oscar dessa revisão evocou algum confronto no presente ou a negligência da sociedade americana permanece no seu trágico contrassenso? De forma geral, está claro que a aceitação desse filme também passa pela vontade de projetar um mea culpa coletivo sobre os “erros” da sua política armamentista. Essa política, veja só, é a mesma estrutura que agora está financiando material e ideologicamente o governo de extrema-direita de Israel na aceleração do massacre na Faixa de Gaza, onde o povo palestino vai desaparecendo sob o pretexto de caça aos grupos terroristas. Joe Biden viajou até Israel para se sentar ao lado de Benjamin Netanyahu e dizer que estava ali para que “o mundo soubesse” qual era o lado dos EUA. Hollywood se reúne para materializar a culpa que seu país tem no passado se esquivando dos lados que têm no presente? A sombra do retorno de Donald Trump impede qualquer racionalidade?


Mark Ruffalo, que concorreu ao Oscar de Ator Coadjuvante por seu papel em ‘Pobres Criaturas’, pediu abertamente um cessar-fogo nas suas redes sociais antes que a escalada da guerra “arrastasse” os EUA. Outros indicados nesta edição também aparecem em abaixo-assinados como America Ferrera, indicada por ‘Barbie’, e Bradley Cooper, indicado por ‘Maestro’. Fora dos holofotes, há outros artistas em movimento – Susan Sarandon, que está constantemente presente em atos pró-Palestina, a novata Hunter Schafer que foi inclusive presa em um desses protestos, e tantos outros que fazem sua parte de forma discreta, como Riz Ahmed, Mahershala Ali, Kristen Stewart, Andrew Garfield, Jordan Peele, Lupita Nyong’o, etc.


Enquanto isso, Noah Schnapp, astro de ‘Stranger Things’, aparece sorrindo com a faixa “sionismo é sexy”, e Melissa Barreira, protagonista da nova etapa da franquia ‘Pânico’, vê seu emprego ameaçado por defender o povo palestino. Enquanto isso, os EUA ficam vetando as resoluções de cessar-fogo na ONU, fingindo uma mediação no conflito acima de qualquer cooperação internacional. Enquanto isso, Hollywood pensa que essa ainda não é, necessariamente, uma “pauta pública”. Talvez esperem mais 80 anos para que algum outro filme finalmente revise a culpa americana – e quem sabe também o premiem por isso.

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