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  • Foto do escritorArthur Gadelha

No estrondo e no silêncio, ‘Zona de Interesse’ congela o horror nazista

★★★☆☆ Sempre em destaque desde que passou por Cannes, Jonathan Glazer se lança ao Oscar 2024 com o silêncio violento dos fantasmas


Zona de Interesse - Oscar 2024

Dado o tema e a contraposição abismal que estabelece entre violência e paz, este é um filme marcado, controlado, explícito mesmo que esconda tanto. Jonathan Glazer, diretor que é inglês apesar da origem alemã deste filme, derrubou muita gente da cama quando trouxe ao mundo Sob a Pele - o filme de 2013 já tinha esse interesse por um “olhar escondido”, especialmente no contexto em que uma alienígena caça homens ao longo da noite, silenciosa, certeira e cruel.

 

Na sequência deste capítulo de suspense, Zona de Interesse explodiu no 76º Festival de Cannes e traçou um inesperado caminho em direção ao Oscar em categorias prime de Filme, Direção, Roteiro Adaptado, Som, além da qual é favorito, Filme Internacional. A trama gira em torno de uma “família oficial” que tem no seu quintal um muro que os separa do campo de concentração de Auschwitz. Do lado de cá, alemães nazistas passam seus dias como numa radiante colônia de férias, entre os afazeres da casa, do jardim e do lago próximo.

 

Ainda nos primeiros minutos, Glazer já estabelece para nós todos os significados de seu paralelo, dualizando o extermínio do povo judeu com sua oficialidade banal e incisiva. Os gritos de horror, os tiros e a fumaça não pressionam qualquer incômodo aos presentes porque compõem a essência de seu cenário, como uma casa isolada que se acostumou a mergulhar na madrugada com o som ameaçador da selva.

 

Não há intenção de alavancar para outro esquema ou em ir na direção de qualquer conclusão sobre a disposição das peças neste tabuleiro, o que também entrega a esse filme um grau de autocontrole muito míope, evitando que exista a escalada de volume ao redor de suas reflexões sobre a “banalidade do mal”, deixando que inclusive sua reverberação sobre os dias de hoje se torne apenas um vislumbre. Nesse espaço-tempo entre séculos convence, no entanto, que seja um olhar sem fé, abatido e tomado de temor, tentando nos perguntar se alguma coisa realmente mudou. Aqui, em meio à duas guerras simultâneas, suponho que sequer consigamos responder. É profundo o olhar de um general nazista para um futuro que ele não conseguiria controlar – o amargo é ainda maior nesta Alemanha de hoje com a existência no parlamento de um partido de extrema-direita ligado diretamente a movimentos nazistas.

 

Zona de Interesse - Oscar 2024

Tenho dúvidas se essa dureza tão linear comunica tanto quanto o experimento estético, em si, supõe que esteja, mas a imersão é irreparável. Além dos sons distantes, há o som que está ali perto, o das palavras que são proferidas sem qualquer arranhão, dos gestos cotidianos que não são interrompidos pelo horror estabelecido logo ao lado. Para quebrar essa observação da “naturalidade”, a trilha sonora de Mica Levi (sensacional em Jackie, 2016) invade o filme em momentos pontuais. Tendo em mãos uma música incisiva, gravíssima e efêmera, Glazer prefere conter muito sua influência sobre as sensações para evitar uma explosão, como se o horror fosse algum tipo de segredo também para seu espectador.

 

Para combinar com o vazio, o diretor prefere um filme seco e sem tato na composição de personagens pavorosos por si só, pela ideia de que suas existências já são um fato abominável. Sandra Hüller, atriz que também surge neste Oscar com o intrigante Anatomia de uma Queda, tem um papel desafiador na pele de Hedwig Höss. Além dos personagens oficiais trajados em uniforme militar que já vimos em tantos e tantos filmes de guerra, sua personagem de uma esposa dedicada ao bem-estar da família gera um propósito de contradição imenso – Sandra é uma profissional incrível, como prova em cada segundo que está em tela.

 

Zona de Interesse, afinal, vai se tornando tão óbvio quanto perturbador – assusta justamente porque sabe causar barulho em meio ao silêncio, no olhar-manifesto de que para entender como o horror do passado consegue se manter ainda tão vivo, é preciso fabular não somente sobre o ódio daqueles que alardearam a violência, mas também sobre aqueles que se recusaram a vê-lo.

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