• Arthur Gadelha

Cine Ceará: Wara flutua com o silêncio de "Mulheres Árvore"

CRÍTICA Após vencer o Prêmio de Melhor Curta com "Soberane" no 75º Festival de Locarno, cineasta chega ao Cine Ceará com outra história silenciosa

"Meu povo veio das estrelas", murmura uma personagem como se fosse uma revelação para si, uma oração, antes de atender ao chamado de uma luz que invade o quarto sorrateiramente. Essas mulheres de Wara, filmadas no município cearense de Pentecoste, não conversam ou se encaram, mas estão sempre juntas, caminhando e contemplando aquele tempo tão quieto e sem pressa. Nesse sentido de espera, poderíamos até pensar numa relação com o cinema paciente dos húngaros Béla Tarr e Ágnes Hranitzky, se esses não fossem tão frios quanto ao destino humano. Olhando uma natureza com sobrenaturalidade sou levado mais ao cinema dos tailandeses Apichatpong e Anocha Suwichakornpong, pois aqui há uma intenção sublime apesar do silêncio e da falta de interação.


Na trama experimental, uma família isolada cuida um segredo milenar na espera da chegada de um Encantado. Declarado dessa forma na sinopse, o maior mistério permanece como tal, importando para nós a imaginação do sentido dessa espera e do valor que essa "partida" constrói para aquela procissão minúscula. Em 17 minutos, vemos poucas imagens e algumas delas permanecem.

No giro da câmera sobre o próprio eixo na entrada da casa, a observação daquele encontro revela fotograficamente como o lado de fora, estourado, parece não fazer parte daquela realidade, introduzindo esse sentimento de clausura como parte de um ritual em curso. Essa sensação retorna quando as mulheres se erguem juntas no quintal de olhos fechados para a luz que oscila sobre seus corpos pela sombra das folhas.


Estudante da Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba (EICTV), Wara alimenta sua filmografia dessa perspectiva ancestral em torno dos que ocupam a Terra e suas terras, olhando principalmente para a metáfora de uma existência alienígena, cósmica, onipresente. Em Soberane, vencedor do Festival de Locarno que também é um filme feito em meio a pandemia, o suspense de uma vida entre-mundos. "A minha existência nesse planeta é possível", se convence a personagem, antes de anunciar que não quer mais voltar de Havana a Fortaleza. "Não tenho a mesma pele, não tenho o mesmo nome".


Mesmo em países tão diferentes, Soberane e Mulheres Árvore compartilham de destinos tangentes, essa vontade de descobrir e proteger símbolos que sobrevivem sob ameaça do esquecimento, fazendo do território um espaço indefinido, solitário e passageiro. Como está tudo muito perigoso, que esse lugar seja fora do Brasil, em direção às estrelas.

 
 

Esse texto faz parte da Cobertura do 32º Cine Ceará


Direção: Wara

Produção: Fede Blanco

Roteiro, Fotografia, Montagem e Som Direto: Wara

Música Original: Cozilos Vitor

Finalização de Som: Martha Suzana & José Carlos Valencia