• Arthur Gadelha

32º Cine Ceará: um Brasil de revolta e fantasia

ENSAIO As descobertas na curadoria da Mostra Brasileira de Curta-Metragem do 32º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema

Elusão (CE), de Taís Augusto

Pensar uma curadoria para a principal mostra de curtas-metragens do Cine Ceará, festival que esse ano chega aos 32 anos de idade, é um trabalho naturalmente desafiador por sua condição abrangente de origens, temas e discussões possíveis que a programação pode proporcionar, ao mesmo tempo em que o espaço de exibição é tão pequeno ao longo dos sete dias de evento. Como espectador do Cine Ceará há pelo menos 10 anos, tendo atuado como crítico de cinema desde a 26ª edição, o objetivo da minha presença foi propor um recorte que pudesse contar pedaços diferentes do nosso Brasil, seja na realidade, seja na fantasia. Abaixo, compartilho alguns pensamentos que levaram à reunião desses 11 filmes diante dos quase 800 inscritos este ano.


Em espaços e tempos bem distintos nos aproximamos de dois atos populares e espontâneos manifestados como uma “revolta” às esferas de um poder que existe para controlar os espaços. Camaco (MG), de Breno Alvarenga, apresenta algo que eu, particularmente, não fazia ideia: uma língua adaptada do português por mineradores no interior de Minas Gerais, um dialeto exótico que não alcançava os patrões e que, apesar de tudo, continua vivo na memória. Bem diferente dessa estrutura aqui proposta de relato/cenário para articular certa semelhança com as imagens de arquivo, Contragolpe (BA), de Victor Uchôa, gosta de ter o seu ritmo caloroso. Num contexto de reinterpretação do boxe como um esporte de comoção em meio a periferia baiana, o filme se aproxima dos entrevistados para compartilhar de seus mesmos entusiasmos, tornando-se por isso um manifesto cativante da transformação que documenta.


Ainda nessa conversa sobre os caminhos transgressores de ascensão socio-cultural-econômica num país cada vez mais engasgado, Celeste (Sobre Nós) (PE), de Natália Araújo, é como um respiro que de tão fundo nos cansa o peito. Ao centrar sua dramaturgia ao redor de Marina, entregadora de pizza que repensa seu próprio espaço na cidade, essa história pode até nos levar a filmes como Eu, Empresa (2021) ou o próprio Fantasma Neon (2022), vencedor dos festivais de Locarno e Gramado, mas ele escolhe ter uma resposta tão mínima que o todo soa como algo novo, principalmente alinhado ao carisma do elenco e a ambientação dúbia de emoções que há nos cenários escuros.


Alexandrina – Um Relâmpago (AM), de Keila Sankofa

Nessa busca por novas respostas (e perguntas), Alexandrina – Um Relâmpago (AM), de Keila Sankofa, constrói uma intensa contestação que não está apenas na imagem, mas na origem de sua captação, no objetivo do seu uso e, principalmente, na autoria de sua narrativa. Partindo do contexto de fotos do século XIX tiradas para cristalizar a imagem-sem-escolha de uma população negra e indígena, o filme se transforma a seguir numa cura do presente que escoa no relato, na dança, na música, na afirmação de um novo destino da memória. Já em O Último Domingo (RJ), de Joana Claude e Renan Barbosa Brandão, o olhar para o passado caminha para algo que já foi, curiosamente, reimaginado. Na trama, o texto de José Saramago ganha outra áurea de mistério e fabulação, como se também fosse um sonho, mas dessa vez mais turvo na reinterpretação quase teatral de uma narrativa bíblica.


No caminho da suspensão, o cearense compartilha conosco sentimentos inesperados de carinho, amor e saudade. Elusão (CE), de Taís Augusto, aproxima-se sem qualquer pressa de um relacionamento com suas texturas de paixão e receio, elaborando a partir disso uma teia visual, sonora e dramaturgicamente impressionante – a sinergia de Noá Bonoba e Rodrigo Fernandes, em especial, colabora para um estado nunca definitivo sobre o que está de fato acontecendo entre Lud e Afonso, sensação de um sufoco contraditoriamente delicioso.


Infantaria (AL), de Laís Santos Araújo

Em Infantaria (AL), de Laís Santos Araújo, os desejos de Joana e Dudu, apesar de bem diferentes, no fundo são essa inquieta vontade de crescer e ter decisões à mão. Diante disso, o filme sabe lidar com essas questões em sua própria origem infantil, mas é feito com muito cuidado para não soar reducionista e para fugir da caricatura; o desfecho, sem sabermos da verdade, é a cereja. Nesse mesmo país conservador (ora, o nosso), Filhos da Noite (PE), de Henrique Arruda, nos leva pelas mãos na energia de uma noite sem fim, contando as sensações sem compromisso daqueles que sempre viram o mundo arranjar um meio para lhes virarem as costas: homens gays entre 50 e 70 anos que estão constantemente reinterpretando seus corpos e espaços. Autor também da distopia amorosa Os Últimos Românticos do Mundo (2020), Henrique faz de seu documentário uma espécie de continuação palpável daquela efusiva sensação da eternidade.


Big Bang (MG), de Carlos Segundo

Vindo do Festival de Locarno, de onde saiu premiado com o chamado “Melhor Curta Autoral”, Big Bang (MG), de Carlos Segundo, entra aqui na jornada final de subversão que talvez nos leve de volta ao começo do texto com “Camaco” na adaptação da realidade como alternativa ao que está posto. A interpretação quase meditativa que Giovanni Venturini dá ao seu personagem, em especial no diálogo com Aryadne Amancio, constata um mundo que trata coisas e pessoas como exceções. Segundo, que esteve ano passado no Cine Ceará com “Sideral”, volta com uma história que, curiosamente, parece ter o mesmo ponto de partida. Encerrando esse ciclo/conflito de desejo e realidade, a fantasia ora humorada ora assustadora de Cemitério de Flores (MG), de Rafael Toledo, nos dá um susto que funciona pelo silêncio, faz parecer que a arte tem sempre um preço muito alto quando ela se confunde, inevitavelmente, com o que está atrás de reconstruir. Olhando para esses filmes que agora chegam no 32º Cine Ceará, eu não poderia achar essa resposta mais coincidentemente flamejante.


Boa sessão! No site do Cine Ceará, confira mais informações sobre os filmes e a programação.