• Arthur Gadelha

Sibéria: retrato de uma solidão insaciável

Abel Ferrara e Willem Dafoe se entregam ao caos da memória

Fotografia de Federico Vagliati

Ensaiando sobre a masculinidade atada à paternidade ausente, Abel Ferrara constrói o personagem de Clint como um fantasma que perambula as terras frias da Sibéria porque, literalmente, escapou da própria vida cercado de traumas e anseios nunca nem postos frontalmente. Ou seja, aqui não estamos devotos à uma penitência unicamente física mas principalmente espiritual que faz questão de fazer da "realidade" um elemento descartável. Sobrepõe-se a exclusão, o frio interminável, os delírios lentamente anunciados sem o temor de soarem brutalidade.


Após a introdução que narra em curtas palavras a razão de seu receio, Clint se apresenta na pele de um Willem Dafoe talvez mais exausto do que aquele que rosna em The Lighthouse, um personagem tolhido ao próprio silêncio já que nem sua língua é compreendida pelos nativos dessa terra ao fim do mundo e o diálogo, portanto, cabe apenas a própria alucinação.


A partir desse cenário composto de forma objetiva, Ferrara se detém então na impressão imagética para dar profundidade a um personagem completamente perdido em si. A fotografia esverdeada dá o tom de dormência, a exemplo da cena em que Clint é levado à caverna pelos lobos - filmada com mais suspense que a ação contemplada, a baixa trilha meditativa introduz o processo de transe, uma sensação onírica que conduz toda a narração como um longo sonho acordado.



Ao longo de 90 minutos, essa dormência proporciona à jornada diferentes experiências quanto a tradução desse acesso aos receios. Para o bem, um retrato concreto de que o filme não tenta se dissociar da loucura de seu protagonista e entra junto no carrossel de texturas daqueles sonhos e memórias tão torturantes - seja na aparição de um urso raivoso ou na bagunça de cenários e temperaturas. Para o mal, Ferrara constrói uma atmosfera tão fria e silenciosa que sua história aposta numa expressão distensa que parece selecionar seu admirador no dedo, este que medido à intensidade das imagens e suas sensações não irá dar relevância ao texto por vezes caricato desses sentimentos. "Não diga quem eu sou quando você está lutando para saber quem você é", revela um personagem - aos poucos, essa investigação da crise de identidade vai ficando redundante apesar do impacto impressionante de suas formas.



Um belo exemplo dessa ambição pela estética da dúvida surge ali pela metade quando Ferrara parece nos levar ao que Terrence Malick fez em 2010 ao vincular uma fúria materna à dimensão da existência cosmológica. Há um sentimento semelhante, porém muito mais angustiante e efêmero, quando a memória de Clint salta de uma criança na cama para o sol em ebulição no espaço.


No meio desse caos, por vezes didático e misterioso, mora a contraditória beleza de Sibéria, um filme que, apesar de ter aparência confusa, mostra-se cada vez mais sincero quanto ao uso de dispositivos padronizados para investigar a fundo esse personagem que embarca na própria viagem sem precisar saber o destino. Do lado de cá, a experiência proposta é mais ou menos a mesma, que a avalanche de sentimentos possa petrificar seu espectador.

★★★

Direção: Abel Ferrara

País: Itália, Alemanha, México

Ano: 2020


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