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  • Arthur Gadelha

Com obsessão, ‘O Menu’ serve um prato frio de suspense e paródia

crítica Construído aos moldes do suspense de revelação, longa testa confiança do público

The Menu (2022) - Crítica - Ralph Fiennes

Na primeira vez que Ralph Fiennes nos encara de longe, na pele do Chef Slowik, o xadrez de O Menu se torna atraente. Na balança, pesos distantes que o confrontam: o entusiasmo de Tyler (numa espécie de caricatura ingênua do Nicholas Hoult), a desconfiança de Margot (numa oscilação convincente de Anya Taylor-Joy), e o comodismo dos demais integrantes daquele jantar, todos pertencentes a diferentes camadas da elite socioeconômica.


Na trama que já começa sem rodeios ou contextos, um jovem casal embarca para uma ilha isolada onde um restaurante caríssimo servirá um jantar requintado, cujo menu é inédito e recheado de surpresas. Estão todos ilhados, aprisionados, sem qualquer perspectiva de fuga - dá para imaginar o que vai acontecer, certo?


De certa forma, o diretor Mark Mylod surpreende na apresentação dessa tensão porque mesmo que esteja tudo bem encaixado, e anunciado, o mistério vai sendo mantido em torno da reação de cada um que está ali. A montagem que divide os momentos pela chegada de cada prato, em paralelo, vai tanto escalando a condição da tragédia quanto rotulando o projeto, aos poucos, como uma comédia, quase uma esquete.


No centro dessa discussão meio bagunçada, a alta gastronomia é posta de frente às suas próprias contradições de subsistência. Em dado momento, Tyler conta emocionado que admira os chefs porque eles escolheram trabalhar com a matéria-prima da vida. Nessa comparação, que poderia no levar até a diversão de Ratatouille (2007), há mesmo um filme interessante, ponderando o significado do sabor, da fome, do poder.


The Menu (2022) - Crítica - Anya Taylor-Joy e Nichola Hoult
Nicholas Hoult e Anya Taylor-Joy

Em comparação de clima e anunciação de um encontro mascarado de intenções, a sensação é de estarmos diante de uma versão cômica do The Invitation (2015), da Karyn Kusama, onde um grupo de amigos se une para um jantar íntimo e vai desconfiando que fazem parte de algo violento. Quando O Menu ultrapassa a dúvida, porém, a equação se esgota, vai se atropelando, repetindo, e suas "espertezas" vão ficando enfadonhas, especialmente a dita dubiedade entre a ficção e a realidade. As reações dos personagens vão se tornando bobas, sem a gravidade de um suspense e sem a energia de uma piada. Torna-se, lentamente, refém da própria teatralidade.


No fim das contas, O Menu brinca muito menos com a culinária do que parece. Está mais interessado na brincadeira da expectativa, no absurdo e na surpresa, sem que precise colocar todas as peças no mesmo ritmo - é visível a forma como o personagem do Nicholas Hoult vai desaparecendo, assim como todos os outros vão se anulando na sátira para que sobre só dois: Fiennes e Anya. Em cena, eles são fortes o suficiente para conduzir a história até o seu fim; a conversa no banheiro, na cozinha, bem como a sequência final, dão ao filme um valor memorável. Ao redor, porém, sobra pouco.

 
 

Direção: Mark Mylod

Produção: Adam McKay e Will Ferrell

Diretora de elenco: Mary Vernieu

Cenografista: Ethan Tobman

Diretor de fotografia: Peter Deming





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