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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Diante da censura, ‘Sem Ursos’ intriga as fronteiras de Jafar Panahi

★★★★★ | Após anos de perseguição política, cineasta iraniano espelha sociedade religiosa em seu autoritarismo institucional

No belíssimo – e até mesmo surpreendente – momento em que a câmera se afasta da cena em que estávamos assistindo para revelar que ela está na tela de um notebook há quilômetros de onde está acontecendo, apenas para ser monitorada pelo seu próprio diretor, somos mergulhados numa magia que sabiamente só caberia no cinema. Afinal, o que era apenas uma história, transforma-se em pelo menos três, acontecendo ao mesmo tempo.


Ao centro, mais uma vez, temos o próprio diretor Jafar Panahi, impedido pelo governo de produzir filmes ou sequer deixar o Irã e que, por isso, está dirigindo uma equipe trabalhando na Turquia. É tudo verdade. É tudo ficção. No lugar em que ele está, porém, na fronteira entre os dois países, o sinal é péssimo e seu trabalho é diretamente comprometido. Quando um amigo o visita, pergunta porque ele não ficou na capital Teerã já que não faria qualquer diferença. Ele responde que precisa se sentir o mais perto da equipe possível.


“Sem Ursos”, portanto, é mais um inesquecível capítulo do cinema iraniano de “filmar o cinema”, a irreverente metalinguagem de um cineasta que precisa constantemente reinventar sua própria criatividade. Ironicamente, mesmo mais de 10 anos depois do seu primeiro manifesto com um “não-filme”, ele não pôde estar presente na sessão de estreia deste quando foi exibido em Veneza porque ainda estava detido. Ou seja, a grande virada que sua carreira deu após a pública repressão sobre sua existência é de uma constância inevitável porque, francamente, como evitar falar disso?


Diante da censura e da perseguição, como Panahi poderia filmar o mundo sem a própria epifania que é poder filmá-lo? Como filmar outra coisa se não fronteiras? Fronteiras entre países, entre culturas, entre liberdade e prisão, entre passado e futuro, entre a vida e a ficção do cinema, das tradições, das religiões, das cidades e de si mesmo. Mesmo que essas linhas imaginárias já estivessem traçadas nos trabalhos anteriores, com destaque para "Taxi Teerã" (2015) que traz atores não-profissionais para revelarem sensações da sociedade iraniana, este aqui traz uma literalidade "nova" no seu modo de guiar histórias a qual pertence. Panahi faz de sua condenação uma permanente dúvida – e sempre um gesto genuíno – sobre como se comportar diante da realidade, como escondê-la ou escancará-la, como mantê-la viva e por perto.



Diante dessas mensagens decodificadas na fantasia à olhos nus, o filme é uma aula de cinema do começo ao fim. Largando com a trama de um casal que aceitou ficcionalizar sua agonia, Panahi é cooptado inesperadamente a um julgamento divino por conta de uma imagem que, brilhantemente, nós como espectadores nem sabemos se existe de fato. Sua câmera, indecente e discreta, pode ter registrado uma traição, logo num vilarejo profundamente regido pelas leis celestiais. O filme que ele estava dirigindo à distância, portanto, precisa desaparecer. O filme, afinal, é este que estamos assistindo sem que o Panahi da ficção desconfie.


“E os ursos?”, ele pergunta a um morador, ao que ele responde “Não tem ursos... É apenas uma história que contam”. De forma direta, Panahi usa o fundamentalismo religioso de um povoado – com seus regimentos morais e éticos –, para vislumbrar a forma como o próprio Governo lhe trata. Mas ele faz isso de um jeito humano, intrigante e eletrizante, como se fosse um roteiro do Asghar Farhadi decantado pela realidade.


Ao ser ameaçado pela autoria de uma imagem que compromete a liberdade de pessoas que ele sequer conhece, para nós é como estarmos vendo uma nova versão – ou continuação – do fascínio de "Isto não é um Filme" (2011). Porque se ele não pode fazer filmes ali, que o filme seja sobre isso, enquanto ele é insistentemente perseguido de forma branda e irreversível. Diante do que lhe é imposto, sem qualquer margem pacífica de reação, o “novo” cinema de Jafar Panahi sobrevive da fronteira que traçou consigo mesmo, movendo-se na interminável agonia de que um passo para cá ou para lá, a qualquer momento, possa interditar a estrada para sempre.

 
 

Direção e Roteiro: Jafar Panahi

Produção Executiva: Nader Saeivar

Montagem: Amir Etminan

Direção de Fotografia: Amin Jafari

Efeitos Visuais: Hamed Mousavi

Som: Mohammad Reza, Delpak Abdolreza,

Heydari Shahin, Khakpour Iman, Baziyar Alireza, Nekoolal Tak e Salar Salimi

Figurino: Leyla Siyahi

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