• Arthur Gadelha

‘Sideral’ mira nas estrelas longe do Brasil

CRÍTICA Um dos representantes brasileiros no 74º Festival de Cannes, novo curta de Carlos Segundo aterrissa no palco do 31º Cine Ceará em noite de memórias

Quem acompanha as publicações deste site em 2021, talvez suponha que eu esteja me repetindo ao pensar constantemente sobre a metáfora de uma abdução alienígena como a falência súbita de um planeta cujos planos da realidade e dos sonhos são constantemente ameaçados. Do espanhol S13p15a (2021), de Jesús Loniego, aos brasileiros Inabitável (PE), de Matheus Farias e Enock Carvalho, e Sobre Nossas Cabeças (BA), de Susan Kalik e Thiago Gomes, essa realidade é tão assustadora e inevitável que a ficção já não soa assim tão absurda.


No último filme de Arturo Infante, exibido no Cine Ceará em 2019, Celeste (vivida por uma humorada Maria Isabel Diaz que venceu o Troféu Mucuripe de Atriz da edição) desiste rapidamente da sua vida quando alienígenas convidam terráqueos para visitá-los em outro planeta. Mesmo que o subtexto esteja apenas na solidão da personagem, sem entrar em observações de existência urbana, há nessa fuga um quê de revolta pelas coisas mínimas que a representam na Terra, deixando no espectador uma pergunta deliciosa: você iria também?


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Em Sideral, novo curta de Carlos Segundo, Rio Grande do Norte celebra o lançamento do primeiro foguete tripulado brasileiro na Base Aérea de Natal, ação cuja grandiosidade causa um impacto direto na vida de Marcela, seu esposo Marcos e os dois filhos. Apesar de não ser autônoma essa atmosfera de repressão política, é exatamente essa mobilidade que faz a história tão aparentemente simples se tornar curiosa numa única dúvida: por que ela toma aquela decisão? Vivida por Priscilla Vilela com muito cuidado para não tornar sua perspectiva previsível, a personagem é o centro da trama sem dar respostas diretas, mas se encaixando como testemunha do que está "invisivelmente" ao redor.



Na comparação do pênis com o formato fálico do foguete, a cena da conversa no bar materializa essa decadência irreparável de uma estrutura patriarcal fadada à repetição, tal qual os significados violentos de um Brasil pós-2018 (ou aquele que sempre esteve aqui). Ao atravessar um quadro sem cor, a bandeira é apresentada como símbolo mórbido de uma nação em processo de desistência, apesar do contexto ironicamente desenvolvimentista de missões estrelares.


Essas duas constatações são observadas por uma fotografia em preto&branco que constrói, junto a trilha arranhada de Jérôme Rossi, essa sensação de um desastre prestes à acontecer, equação que Segundo administra bem conduzindo seus personagens e paisagens no mesmo sintoma. Mistério, afinal, é um elemento memorável na sua abordagem, dado o desfecho angustiante de De Vez Em Quando Eu Ardo (2020), vencedor do Prêmio da Crítica no 14º For Rainbow.


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Priscila Villela e Ênio Cavalcante

- Eu tô cansada

- Cansada de quê? Acabou de chegar


Certo dessas dúvidas, no entanto, há também a impressão de que vemos muito pouco dessa partida, decisão narrativa que tanto pode deixar seu espectador estático como atraído por acontecimentos que, por não chegarem à tela frontalmente, dependem de uma atmosfera que está nas outras presenças: além de Priscilla, Ênio Cavalcante faz de Marcos um personagem desnorteado e que, apoiado pela estrutura, parece se orgulhar disso. Sabendo que seu texto tem certa liberdade tragicômica, Sideral sabe se aproveitar do gancho que deixa pairar quando acaba. Assim como Celeste, o ato de Marcela não surge como motivo de esperança, mas como um impulso que se basta, sem projetar futuro ou conforto, quem sabe encarando à qualquer custo esse Brasil desmedidamente imoral.

★ ★ ★ ★

Direção e Roteiro: Carlos Segundo

Produção: Pedro Fiuza, Mariana Hardi, Damien Megherbi, Justin Pechberty

Música: Jérôme Rossi

Fotografia: Julio Schwantz e Carlos Segundo

Montagem: Jérôme Bréau e Carlos Segundo

Direção de Arte: Paola Ottoni

Ano de Lançamento: 2021

País de Produção: Brasil e França