• Arthur Gadelha

31º Cine Ceará: "Fortaleza Hotel" revigora noite de cinema cearense

CRÍTICA Inaugurando a competição do evento, novo longa de Armando Praça é uma avalanche de sentidos

Clebia Sousa

De volta ao Cine Ceará após a estreia arrebatadora de Greta (2019), vencedor de Melhor Filme daquele ano, Armando Praça marca novamente a filmografia cearense com o longa-metragem Fortaleza Hotel, exibido numa noite toda dedicada ao cinema cearense, com direito a homenagem a atriz Marta Aurélia e ao cineasta Halder Gomes - nada mais justo para celebrar um retorno presencial do evento de cinema mais antigo do Estado.


RELEMBRE

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Diante desse contexto, foram muitas as sensações ao ver em tela e som imensos essa história tão recheada de solidão que tem a cidade de Fortaleza mais que uma mera locação, mas posicionada como uma personagem crucial para entender a contradição entre a imobilidade de Pilar e sua vontade de fugir. Na trama, ela é uma camareira que vê seu destino cruzado com o de Shin, hóspede sul-coreana que está na cidade para resolver as burocracias que surgiram com a morte do marido.


Em coincidente sincronia com esse cenário de natal que já estamos inseridos na vida real, a jornada de Pilar soa ainda mais como um ritual de despedida, devota à essa sensação de que a virada do ano representa um novo tempo. À medida em que ela vai se envolvendo com a hóspede, ambas vão percebendo que se sentem estrangeiras em suas próprias terras, o que dá a história uma envolvente melancolia em relação a esses espaços - se o roteiro podado não dá conta dessa intensidade, ainda mais ao inserir um contexto social e um conflito ético sem tanto interesse de destrinchá-los, a imagem, porém, traduz todo o restante.


Lee Young-lan

Parece difícil imaginar que um espectador possa sair da sessão sem ter se impressionado com vários dos enquadramentos que posicionam Pilar e Shin sempre de forma retraída, mas as pondo em paralelo com a cidade e suas limitações enquanto palco: seja pelas grades de um portão ou pelo vidro de um aquário, essas mulheres estão quase sempre à vista como se estivessem, na verdade, escondidas. Na construção desse subtexto, a fotografia de Heloísa Passos é sufocante, especialmente por nunca se render às tentadoras cores meramente fictícias por si só: então até o que não é "natural" por aqui, como luzes azuis e vermelhas, ganham esse traço que beira o delírio sem tirar o pé do chão. Seja nas paredes do quarto, na profundidade da rua, nas vidraças de uma vitrine ou no mar que se espalha e contrai, a cidade está sempre lá na imagem de forma desafiadora, como se dissesse às suas personagens que aquele ali já é o lugar que as pertence.


Como segundo longa de Armando, é curioso também pensar Fortaleza Hotel como história sequencial ao Greta, pois ambos são filmes que usam a cidade como plano de fundo para captar as texturas quase secretas desse litoral e para deixar claro, principalmente, que o paraíso é uma ficção, motivo pelo qual nessas histórias a cidade é também um ambiente ameaçador, suscetível ao crime, mas também ao amor. Mesmo que aqui não haja sutileza e, consequentemente, nem uma emoção tão verossímil na forma como esse contraste é incrustrado no enredo, o texto e as atuações dão ao filme um tom de ternura que soa inédito.



Clebia Sousa e Lee Young-lan, como Pilar e Shin, formam uma dupla cuja energia se constrói na casualidade de seus rumos tanto no roteiro quanto em suas próprias atuações. Fortalecido pelo fato das interações serem em outra língua, a relação das duas personagens enfrentam o desafio de uma comunicação acima de tudo sensorial, aposta final da trama quando Shin "se rende" ao que restou de sua confiança na linda cena da dança.


Ainda há muito o que pensar sobre Fortaleza Hotel, principalmente pela abordagem conseguir ser tão simétrica sem soar artificial, e acredito que o atravessamento dos conflitos existencial, social e linguístico tem capacidade de se firmar como referência dentro do que entendemos ser um "cinema urbano" ou um "cinema de Fortaleza". Depois que Pilar se despede daquela forma tão misteriosa, sair do cinema e encarar uma árvore de natal imensa montada na Praça do Ferreira é também lembrar que mundo é esse em que nossa cidade existe, é como se o tempo estivesse parado há muito tempo.

 
 

Direção: Armando Praça

Roteiro: Pedro Candido e Isadora Rodrigues

Produção: Janaína Bernardes e Maurício Macêdo

Fotografia: Heloísa Passos

Montagem: Gustavo Campos, Karen Harley e Rita M. Pestana

Elenco: Clebia Sousa e Lee Young-lan

País de Origem: Brasil (CE)

Ano de Lançamento: 2021