• Arthur Gadelha

Visita: Jia Zhangke converte a pandemia

Em apenas cinco minutos, um mundo que já é nostálgico

Pela chacoalhada brutal que a pandemia do coronavírus proporcionou ao mundo, não resta dúvida de que o enclausuramento físico e espiritual tomará diversas telas do cinema. Em exibição 44ª Mostra Internacional de São Paulo, o novo curta de Jia Zhangke faz isso de forma didática. Ainda nos primeiros 30 segundos, o convite ao apertar das mãos que até ano passado poderia ser natural é filmado com suspense: a trilha de tambores sequenciais e a câmera que caminha da mão para o rosto de quem convida até que ele perceba que aquilo não é mais possível.


Filmado em preto & branco, a história usa a justificativa de uma visita "à trabalho" para detectar esse novo mundo: a presença das máscaras, a distância e o álcool em gel servido como se fosse um drink. A estética monocromática é quebrada de forma singela, quando a visita encontra no banheiro uma planta colorida sobre a pia. Em seguida, vemos uma árvore também colorida do lado de fora, uma mensagem que encosta na cafonice pelo contraste da vida entre ameaça e tranquilidade.


Mas o que há de realmente bonito neste filme infelizmente dura só alguns segundos. Quando os dois se sentam separados diante de uma projeção para assistir a milhares de pessoas definitivamente aglomeradas que formam o que parece ser um oceano pulsando em ondas. Do lado de cá, essa realidade é impossível.

★★★

Direção: Jia Zhangke

Título Original: Lai Fang

País: China

Ano: 2020