• Arthur Gadelha

Tigerland: à beira do Vietnã, a guerra é outra

Estreia de Colin Farrell como protagonista, filme de Joel Schumacher é mais um exercício de linguagem e expectativa

Quando os soldados norte-americanos apareceram na tela de Terrence Malick (Além da Linha Vermelha, 1998) com mais medo de matar do que de morrer, a audiência da sensação percebeu que havia alguma coisa nova ali, algo que corria levemente por fora do ideário cultural sobre as perspectivas de guerra no cinema dos EUA. Dois anos depois, essa sensação retornaria de forma apenas sugestiva nas mãos do veterano Joel Schumacher - Em Tigerland - A Caminho da Guerra, a regra é fingir que se entende a guerra.


Embora se passe em torno da Guerra do Vietnã, e que o roteiro seja fruto de um relato verdadeiro, o contexto realmente não importa para o que chega na tela: um ensaio sobre a desmoralização da guerra na figura do recruta Roland Bozz, vivido por um Colin Farrell propositalmente desajustado, que se rebela às ordens do exército e se mantém numa linha tênue entre o descompromisso e o respeito mínimo pelo que vem depois, pela própria sobrevivência além-guerra.


A fotografia serrilhada em grãos da película, aliada aos movimentos quase documentais e "tortos" da câmera, ajudam a construir essa sensação que fica num limiar entre a urgência e o desinteresse, como se estivesse espionando, filmando com a mesma seriedade dúbia que seu protagonista encara o fato de estar ali. "Bozz, ninguém se demite da guerra", impõe discretamente uma das autoridades, ao que Bozz responde com um cigarro na boca: "Eu não tô me demitindo, só não não tô jogando". Claro, a guerra não faz sentido, mas ele continua ali dividindo a sanidade com um pelotão que não respeita e, principalmente, com Jim Paxton, um amigo que lhe acompanha tanto nos sentimentos das missões quando no desejo de continuar vivo.


Tigerland, também, não é nada além disso. Nem totalmente devoto às sensações contraditórias de seu protagonista e nem interessado em aprofundar qualquer sentimento ao redor. Parece uma constatação objetiva, e por vezes óbvia, do que pode significar aquela realidade, o sentimento de um soldado (ora alheio ora imerso) prestes ao confronto. Ao gostar de ser um filme de guerra sem guerra, a história nunca se deixa ser uma "preparação para a morte" enquanto vai se transformando numa história sobre algum tipo de amizade. Um filme bastante simples, até vazio, mas que sabe incorporar a falta de respostas à medida em que cria perguntas initerruptamente.

★★★

Direção: Joel Schumacher

País: EUA

Ano: 2000

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