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  • Foto do escritorArthur Gadelha

‘Segredos de um Escândalo’ rivaliza moral com a ironia da imitação

★★★☆☆ Todd Haynes desmonta um drama sisudo para escancarar uma brincadeira fora de tom


Até quem ainda já tinha assistido ficou meio assustado com a indicação de “May December” – no original - ao Globo de Ouro de “Melhor Filme Comédia ou Musical”. Tudo bem que essa categoria tem seu histórico de seleções caóticas, sempre lançando ao mesmo pote os filmes que desvirtuam minimamente do que é entendido como “drama convencional", lógica que não lhe é exclusiva vista a mesma situação com a série The Bear no Critics Choice. Esse pensamento de gênero, no entanto, pode nos levar a uma acidez fascinante diante do enredo áspero baseado no mundo real. Afinal, como pode a trama onde uma mulher de 36 anos se relaciona com um garoto de 13 ser... uma comédia?

 

A resposta está no olhar que Todd Haynes, um diretor atípico, resolve lançar para a metalinguagem encrustada nesse emaranhado desde os primeiros minutos. A protagonista, afinal, é Elizabeth, uma atriz que está em pesquisa de campo para compor sua próxima personagem em um filme independente: Gracie, mulher que não reconhece o escândalo que é ter engravidado de uma criança já que, mesmo presa e condenada, traçou seu destino ao seu lado, casando-se e formando uma família. Como uma artista atraída por trabalhos complexos, este é um prato cheio: como entender essa mulher?

 

A equação se transforma exatamente neste ponto de inflexão – a condição moral perturbadora que há entre Gracie e Joe é direta e aterradora, mesmo que o casal se esforce para rotular uma normalidade silenciosa e sem confrontos, colocando até Joe, hoje adulto, para ser o porta-voz desse combinado. O que não está tão claro assim, e aos poucos vamos invadindo seu deslize, é a moralidade que orbita no impulso de Elizabeth na sua busca por “se tornar” aquela pessoa, de aproximar-se tanto de uma percepção alheia para representá-la com “veracidade”. O resultado é pífio, como o próprio filme debocha "com seriedade" na cena do monólogo ou na cíclica do desfecho. Mas o que importa é a ironia dessa busca pela imitação das sensações e de um corpo que ela não pertence.

 


Estabelecido esse jogo de segredos, Julianne Moore é de uma discrição enigmática, escondendo culpa e violência em lugares muito próximos na construção da máscara que apresenta ao mundo e para si própria. Charles Melton tem seu espaço como um garoto que nunca se tornou homem, principalmente na breve cena da interrogação noturna, mas o destaque está mesmo escancarado sob Natalie Portman, o vetor de transformação do que há além da mera seriedade em um projeto como esse.

 

Com Portman, Elizabeth vai se perdendo sob a ficção de seu mergulho, dando ao filme uma discussão moral mais arisca já que nós somos o espectador a julgá-la no processo e não, contraditoriamente, Moore, a atriz que já está interpretando a personagem “real”. Essa ironia constrói uma sensação difícil de descrever, insustentável na recriação do acontecimento, mas na permanente rivalidade com a bobagem da imitação. Enquanto roteiro e montagem não se aproveitam tanto dessa eletricidade intrigante, aos poucos trilhando os conflitos de forma bastante comportada, direção de cena e a trilha sonora, do paulista Marcelo Zarvos, fazem a festa.


Compreendo quem interpreta que esta virada de chave retira a força dramática do que torna Gracie uma personagem monstruosa, mas percebo também que o filme deixa as peças bem-posicionadas no tabuleiro para que ninguém seja propositalmente enganado sobre qual jogo está sendo esmiuçado aqui. O contato tão atraente e quanto repulsivo entre Gracie e Elizabeth é tão importante que Haynes vai beliscar em embriagadas referências de Bergman e até de Almodóvar só para nos estabelecer que a “brincadeira” aqui é muito mais cênica do que interessada em entender qualquer elemento deste nosso violento e desolador mundo real.

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