• Arthur Gadelha

Rosemberg Cariry grita no 29º Cine Ceará e é impossível não ouvir

'Notícias do Fim do Mundo' é a reação de violência ao medo, é a busca por uma paz cuja impossibilidade é detectada por Jacaúna, o líder dessa revolução.

É o fim. Não passa desse ano. Quem sabe desse mês, semana ou até dia. Parece que o mundo está acabando na tela do 29º Cine Ceará, em ruínas, à míngua, pedindo socorro. A mostra competitiva ibero-americana de longas começou ontem no grito contra o silêncio da injustiça no peruano Canção Sem Nome, de Melina León, e este domingo catártico encontrou o grito contra um mundo tão moderno quando "secretamente" violento, com a estreia de Notícias do Fim do Mundo, do clássico diretor cearense Rosemberg Cariry


"Para ajudar na crise, está chegando uma intervenção de países ricos que nos trarão a democracia" - é a resposta de acalento que um governo fascista dá ao povo através da mídia quando precisa combater a desordem que instalou, pois é dessa mesma "democracia" que vem a guerra, de uma centelha de nada, chegando ao ponto de "nem saberem mais o motivo da primeira morte". O novo filme de Rosemberg é uma gritaria ao fim dos tempos, ao rumo de loucura que trilhamos num caminho sem qualquer garantia de fôlego. A revolta de um grupo de artistas maltrapilhos contra a tirania mansa de uma figura governamental é o estopim de um desespero que é posto na tela na forma de um protesto. 


É quando Noticias do Fim do Mundo se distrai da ficção que sua eloquência aflora, vira quase um documento se não fosse por seu interesse em transformar essa distopia num encarnação cênica. Não há mais nada convencional nessa Fortaleza de Rosemberg, e a pose teatral é evocada com certo tom de ridículo. Já não é uma cidade, ou um mundo, que pareça valer a pena, pois enquanto os loucos se revoltam, a cidade se senta à frente de uma TV. É por ela, e tantas elas, que essa sociedade verá tudo desaparecer. 


Depois da emulação, o filme se transforma num experimento de resposta, apostando numa construção que parte da realidade e a costura com os sinais que já somos capazes de sentir. O filme, curioso fato, foi filmado há quase 10 anos, e anseia um desfecho no avanço do totalitarismo que assusta ainda mais a plateia desse 2019. E Rosemberg sabe, o cineasta que faz parte da identidade do cinema cearense, que esse filme não precisa nem partir ou sequer seguir qualquer formalidade. A história aqui, o roteiro e o impulso dessa narração elétrica, pouco tem a ver com um "sente aqui que eu vou te mostrar um filme". 

Notícias do Fim do Mundo é a reação de violência ao medo, é a busca por uma paz cuja impossibilidade é detectada por Jacaúna, o líder dessa revolução. Da lona das ruas ao povo fora das televisões, uma revolta que talvez já conhecesse o destino de quem vira as costas. Ainda há muito para digerir, quem sabe ainda exista uma resposta calorosa em meio a amargura que me passou pelo ritmo. Mas, por enquanto, é isso por aqui. Protejam-se porque o mundo, há mais de 1500 anos nessas florestas que queimam, está chegando ao fim para quem é menor que os "donos da paz". 


Rosemberg Cariry encosta a contemplação de lado e deixa muito claro que, apesar do mundo, não é sua carreira que vislumbra um desfecho - está ativa, frenética, gritando pelo que precisa e soltando ideias rasgadas ao ventilador, porque aqui, dos dois lados da tela, foi um grito muito alto nesta noite.


*Filme assistido no 29º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema. Texto originalmente publicado no site Quarto Ato


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