• Arthur Gadelha

O Protetor do Irmão: o tumulto imóvel da punição

CRÍTICA Vencedor do Prêmio da Crítica no 71º Festival de Berlim, novo filme de Ferit Karahan projeta a farsa da ordem sobre as consequência do convívio

O cenário em que somos apresentados ao universo de O Protetor do Irmão é o epicentro de uma tensão que vai implodindo sobre consequências imprevisíveis, fazendo com que do lado de cá acessemos na mesma medida a empatia dos que não têm culpa e o desprezo pelos que a nutrem pessoal e institucionalmente. Na ficção, um internato para garotos curdos, ao leste da Anatólia, emprega o regime autoritário como proposta de uma educação rígida e, contraditoriamente, frouxa, no que diz respeito à manutenção da robusta identidade masculina. Não há espaço para o erro ou para a dúvida, e é exatamente na religiosa obediência em que o conflito surge para ser burocraticamente entupido logo em seguida, revelando arbitrariamente que nesse sistema não há rota de fuga.


Em primeiríssima impressão, o que hipnotiza é a forma como os opostos são apresentados no fio condutor dos acontecimentos que seguem desencadeando sem qualquer presunção de controle: sem saber como ajudar o amigo Memo que está sem conseguir falar ou andar, Yusuf tampouco consegue atenção das suas autoridades para gerir o caos. Nesse pedaço inicial, a legitimação do abismo entre os poderes de ação é o motor de uma curiosidade sobre o quão longe a indiferença permanecerá ao centro da confusão. Quando o posicionamento dos superiores muda num estalar de dedos, o poder é pulverizado e a dita robustez já não vale de nada, visto que nenhum deles sabe o que fazer.


Seguindo-se numa série de desentendimentos sobre como resolver a situação, a obra surpreende por se transformar aos poucos num filme até engraçado sobre a instabilidade do comportamento ditatorial fora de sincronia com o mundo. Quando passa a acontecer dentro da sala onde o corpo de Memo está estendido e imóvel, o bate-boca vai cutucando o mal-estar dos personagens que se dão conta da ineficácia das regras e dos protocolos, mas sem que ninguém queira admitir um para o outro, produzindo uma sequência de desconversas, suspeitas e covardias. O constante deslize pelo piso molhado à beira da porta, por exemplo, é um dos pequenos gestos que denunciam a brincadeira, do roteiro e das performances, como ferramenta para potencializar o ridículo; não à toda demora muito para que alguém tenha a ideia de enxugar o chão.


Por outro lado, a direção de Ferit Karahan busca uma convivência dessas perspectivas, principalmente no silêncio de Yusuf (Samet Yildiz) e no nervosismo disfarçado do professor Salim (Ekin Koç). Mesmo que essas emoções se encaixem no ambiente congelado e desolador que iguala ditador e oprimido, a obra também vai se tornando um filme engessado e exaustivo, apesar da duração de 82 minutos, mostrando-se esgotado inclusive quando decide resolver o tumulto na contramão do atrito social que sustentou toda a angústia até ali.


Apesar disso, O Protetor do Irmão chega ao fim mantendo intactos seus discursos sobre a persistência da cultura punitiva e de seus efeitos, fazendo questão de deixar claro que aqueles homens destinados às decisões são frutos do mesmíssimo regime "pedagógico". Lidar com a vida ameaçada de um garoto inocente não é um movimento desesperador por si só, mas porque representa a emersão da culpa, sentimento cuja consequência é terminantemente indiscutível.


Essa crítica compõe a cobertura do 10º Olhar de Cinema

★★★

Direção: Ferit Karahan

Roteiro: Gülistan Acet e Ferit Karahan

Produção: Kanat Dogramaci

Fotografia: Türksoy Gölebeyi

Direção de Arte: Serkan Dögücü

País de Origem: Turquia, Romênia

Ano de Lançamento: 2021