• Arthur Gadelha

Por Trás da Muralha de Tijolos Vermelhos: encarando o caos de dentro

CRÍTICA Dirigido por um grupo de diretores que preferiu não se identificar, o documentário se aproxima de um episódio na revolta de Hong Kong para identificar o quão aterradora pode ser a política

Surge uma sensação especial por ser um espectador brasileiro diante das primeiras imagens caóticas desse filme. Permeando visões barulhentas de uma série de protestos contra leis restritivas por impasse político entre Hong Kong e Pequim, em 2019, a sufocante sequência de perseguição leva a memória para as imagens desse ocidente latino: a repressora brutalidade policial dualizando com o medo e a esperança que convivem no ato de se manter as ações movidas por uma ideologia viva; situações que até eu mesmo já vivi de dentro tal qual aqueles jovens ilhados numa universidade, impedidos de dar curso a uma vontade de deter a regressão da ridícula história do nosso mundo.


Ciente desse escopo, o grupo de diretores se contenta em registrar o ato em seu estado mais súbito, irreversível e inconsolável; afinal, a "prisão inversa" imposta sobre as promessas de punições futuras representa um trauma impossível de se comunicar com elementos tradicionais, fazendo com que a digestão dos acontecimentos seja autossuficiente. Há pequenos gestos na condução de perspectiva com o acréscimo de breves legendas que contextualizam o grau da ausência de resoluções, mas essa não é uma narração de fúria e retaliação como Cabeça de Nego, de Déo Cardoso, ou Espero Tua (Re)Volta, de Eliza Capai, mas uma crua observação do terror.


Sem montagem cruzada, narrações ou sobreposições de arquivos, as imagens se sustentam na própria narrativa sequenciada, na denúncia direta. Em meio a perseguição e tortura às claras do dia, de repente surgem câmeras e microfones, e o próprio filme se apresenta como essa arma agindo em tempo real cuja vida própria mora na posteridade. Então é nos colocando radicalmente para dentro que o filme afirma seu papel de articular a legitimação do movimento, e por isso age de forma mais sensorial do que propriamente didático.


Cenas como o painel de guarda-chuvas protegendo uma multidão do jato d´água, as angustiantes anunciações de desmembramento da ação e as despedidas dos alunos, são desses olhares que não se esquece. Ao mesmo tempo, claro que o filme tem consciência de existir pelo impacto de ser uma queixa fria e invasiva, e não necessariamente porque sua narrativa vá causar impressões distintas ou formalmente complexas. O discurso é direto e sem rodeios, como um filme-serviço, condição que não o enfraquece ou invalida, mas que propõe uma sincera posição diante das vozes que precisam ser registradas e compartilhadas pelo mundo.


Quando um aluno teme perceber a ausência de jornalistas e encara sua possível morte como uma morte que "ninguém vai saber", confirmamos a razão de todas essas discussões estarem comprimidas num filme que as fazem bastar no honesto desejo de revelá-las - comparando esse ímpeto com os próprios rostos que a obra precisa esconder, de personagens e até mesmo dos que captaram esses sons e imagens, o filme encerra com uma febril certeza de que o cinema pertence às transformações do mundo tal qual à realidade.


Essa crítica compõe a cobertura do 10º Olhar de Cinema

★★★

Produção: Hong Kong Documentary Filmmaker