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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Na memória e no desejo, ‘Vidas Passadas’ constrói uma emoção imóvel

★★★☆☆ Com tímidas indicações ao Oscar 2024 de Filme e Roteiro Original, Celine Song retrata um amor de infância que atravessa tempo, espaço, língua e cultura



Diante dos vastos trajetos a serem traçados a partir de cada uma das escolhas das nossas vidas, essa dúvida do “e se?” é tão inerente à forma como funciona nosso pensamento que talvez seja tão antiga quanto o ato de “contar histórias”. Afinal, é natural olhar o passado e fabular outras versões de acontecimentos e suas consequências, um ato quase terapêutico nesse constante processo de aceitar que tudo o que nos resta é o presente. Mergulhando nesse sentimento, Celine Song reconhece a universalidade imensa que há em “Vidas Passadas” e a utiliza de forma certeira para aproximar seu espectador das emoções que desperta, mas também é notável o quanto o limite desse enredo o petrifica.

 

No contexto de uma paixão de infância que nunca adormeceu, atravessando tempo e espaço para se manter acesa apesar da distância e da falta de contato, me assusta que essa gravidade ganhe formas tão óbvias, a começar pelo flashback dispensável da própria infância que pouco agrega além do que é literal. Essas decisões, como nas conversas mínimas via Skype que nos forçam a imaginar uma saudade ou nos saltos temporais que demarcam didaticamente as emoções, acabam levando o filme a lugares muito anunciados, remoídos num texto que é sempre o mesmo e sem subjetividade palpável para além de uma imaginação que não sobrevive sob os dois por tanto tempo. A expectativa do que há entre eles, seja nesta ou em outras vidas, contenta-se com a repetição e com a falta de perguntas.

 

Por outro lado, essa mesma sensação dá ao filme um “vazio” atraente justamente porque é fácil de ser ressignificado por seu espectador que o preenche de saudades e silêncios próprios, fazendo, principalmente, com que a história soe profundamente íntima de inquietações adormecidas. Para construir essa sensação sem lhe dar tanto material, impressiona a forma como Greta Lee acomoda seus olhares imensos por detrás de dúvidas, felicidades e frustrações latentes.

 


Teo Yoo, porém, toma a difícil tarefa de ser apenas um suporte atento às reações que precisa materializar para escalar sua parceira de cena. Não acho que seja uma soma tão bonita quanto parece na ideia, às vezes tão pálida que parece preparar uma mudança de rumo que jamais acontece. A trilha discreta e a fotografia sempre tão charmosa ajudam a nos mergulhar nessa energia meio Trilogia Before de um entardecer que nunca termina como símbolo desse sentimento que não anoitece.

 

Por mais que caminhe em linha tão reta, sem perder qualquer equilíbrio ou se permitir às rasuras, o roteiro encontra seus respiros para crises que também estão fora desse eixo. A relação de Nora com seu marido, por exemplo, é muito mais recheada de ideias sedutoras – na cama, ao ouvir sua história de amor em meio a tanta burocracia do destino americano, ela descobre que seus sonhos ainda estão lá no Oriente quando fala em coreano durante o sono. Arthur revela que está aprendendo a língua não para se comunicar com a esposa, já que ela mantém o contato em inglês, mas para entender o que ela fala à noite quando aquele sol da tarde só existe dentro de uma fantasia que ela esconde até de si mesma.

 

“Vidas Passadas”, afinal, nunca faz questão de camuflar a doçura do seu discurso e nem de seu trajeto, construindo dois personagens tão quietos quanto abertos a projeções de uma plateia ansiosa por histórias que leiam suas almas. No melhor dos sentidos, penso que Celine Song soube dar vida a um filme que consegue ser discreto para acolher tanto o alívio quanto o sufoco de estar acorrentado às coisas que jamais poderão desaparecer.

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