• Arthur Gadelha

Pânico: quando a regra é repetir, o tributo pode perder coragem

ENSAIO Sem direção de Wes Craven, quinto filme da emblemática franquia de terror chega com muito orgulho. Há spoilers, logicamente.

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Das famosas sagas americanas, Pânico talvez seja a mais esperta nessa boba dicotomia público-crítica porque ela escolheu o próprio universo do cinema para se construir e por isso pode se defender incansavelmente na própria ironia. “Como se conta um filme de terror?”, pergunta que Wes Craven começou respondendo nos anos 1990 de forma muito lúcida, brilhantemente brincalhona, e que ao longo de 15 anos foi se transformando em outras maiores: como se cria uma franquia popular? Até que ponto é possível substituir a surpresa pela repetição autoconsciente? Diante dessas respostas curiosas, como chegamos então a este “quinto” capítulo mais de 20 anos depois e, dessa vez, sem Wes?


Nós e o cinema - e vice-versa

Ao rever os quatro filmes anteriores antes de encarar este, me peguei pensando no quão brilhante é a própria saga reconhecer (e por isso remartelar constantemente) que só o primeiro é mesmo uma obra-prima na tangência entre arte e vida, fazendo questão de deixá-las rosto a rosto, indissociáveis, refletindo tanto sobre o organismo do cinema quanto sobre o poder avassalador dessas histórias sobre nossas vidas.


Em seguida, apesar de eu não me envolver com seus movimentos nesse sentido, me deliciei novamente com boas ideias levantadas. Um assassinato dentro do cinema enquanto a audiência se alimenta da mesma violência. Uma perseguição dentro de uma casa cenográfica que imita o cenário original do crime. Uma sequência de filmes inspirados pelas mortes que aconteceram dentro dos próprios filmes, mas que com o tempo vão se esquecendo de onde vieram. São tramas muito isoladas, umas passageiras e outras exaustivas, mas são boas.


No quarto filme, a grande epifania é de que com os originais “não se mexe”, frase dita pela própria Sidney de volta a Woodsboro porque só ela, a original, é que pode encerrar o caso. Está no script. Neste quinto, que não quer se chamar de quinto, a epifania é o quê? Que agora é possível quebrar uma das regras da franquia: trazer um dos assassinos de volta, mesmo morto? A filha, claro... Se no anterior levaram ao centro alguém ligada a Sid (Emma Roberts naquela presença caricata), nesse precisava ser alguém ligada ao outro lado, o cultuado primeiro Ghostface... Será que vale mesmo a pena “mexer” com o original?


De volta a Woodsboro

Embora o Ghostface da vez discorde, sim, todos nós, inevitavelmente, já vimos esse filme, tal qual Sidney revela ao subir as escadas com um revólver em punho para tentar dar esse capítulo um “novo final”. Mas diante do que é esse projeto, nenhum movimento realmente novo é possível pois é exatamente esse o seu lugar de honra e nostalgia. “Nem reboot, nem sequência...”, brinca o roteiro em dado momento de "mesa redonda" pensando em nos causar ânimos.

À medida em que o filme vai se moldando com esses novos adolescentes, especialmente com o chocante retorno visual do Billy Loomis, fiquei muito animado com o leque de possibilidades que os roteiristas James Vanderbilt e Guy Busick poderiam dar à forma, estética e narrativa, dessa saga, quem sabe aproveitando a distância e o próprio argumento para pensar diferente, para fazê-la mudar novamente o jogo do terror que aqui ele mesmo tira onda falando de Babadook (2014) e A Bruxa (2015) como “histórias superiores”.


Cena de Strab 8 (2022?)

Quando aparece um Psicose citado ali no meio, meu coração acelerou: "será que terão a audácia de revelar quem é na metade do filme?", pensei, seria genial. Será que vai rolar uma coisa meio Maligno (2021) do James Wan e a Samantha é a assassina sem saber? Seria assombroso. Acaba que muita coisa "seria" nesse filme, mas ele escolhe ser “apenas” uma homenagem óbvia ao Wes Craven, repetindo a fórmula que ele inaugurou e o marcou até o fim da sua vida, mas ficando sempre nesse lugar protegido de autorreferencias vazias de emoção.


+ Crítica | Maligno (2021): entre monstros e demônios, a reinvenção


No filme, quando Richie está assistindo a um react do YouTube sobre o novo filme da franquia Strab, os fãs estão rechaçando a forma como a saga se perdeu e agora usa coisas distantes da identidade consagrada (talvez como o Velozes e Furiosos que começou com um racha urbano de polícia-ladrão e 20 anos depois tem cena até de carro no espaço). A cena de Strab 8 mostra um Ghostface com máscara de ferro atacando com um lança-chamas, imagem usada rapidamente no trailer como se fosse parte do próprio filme. Então fica claro. A saga não quer, e talvez nem possa, encarar seus fãs (como Lana Wachowski o fez arbitrariamente), não pode correr o risco de manchar o legado de Wes. Repetir é a regra, mais uma vez.



Curiosamente, apesar do talentoso novo elenco, nada brilha mais na tela que David Arquette e Courteney Cox, os verdadeiros donos da evolução dessa longa história que tem a minha idade de vida. Como Neo e Trinity, Kevin e Nora, as histórias de amor que surgem no subtexto, mas que são mesmo as histórias principais. Nesse capítulo, numa quebra quase como a que Richard Linklater faz em Antes da Meia-Noite (2013), Dewey e Gale estão separados, mas conscientes da história que criaram juntos – está aí uma metáfora do envelhecimento da saga mais charmosa do que qualquer outra nesse filme. Apesar de toda a indigestão ao redor, ver essa história ganhar rumos vale muito a pena – o reencontro, a despedida, são cenas bonitas.


Que pergunta criativa esse Pânico agora quer responder que esteja à altura daquelas que os outros filmes fizeram? Que o slasher ainda tem importância em meio aos “modernos” e psicológicos? Se era para o original ser respeitado, por que não o deixar intacto? Será que é porque já está antigo demais e o estúdio precisa atualizá-lo para uma nova audiência como fizeram ao Star Wars? Em meio a esse emaranhado de questões que ficaram dentro de mim, acaba que nenhuma importa, de fato. E tudo bem também, entendo que seja exatamente isso o esperado sobre um filme que, recusando a numeração sequencial no título, soa como o tributo definitivo aos elementos que construíram essa observação, ora ácida e esperta, do que é fazer cinema de indústria nos EUA.

 
 

Direção: Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett

Roteiro: James Vanderbilt e Guy Busick

Montagem: Michel Aller

Fotografia: Brett Jutkiewicz

Direção de Arte: Chad Keith

Música: Brian Tyler

País: EUA

Ano de Lançamento: 2022