• Arthur Gadelha

Marco Nanini se entrega em "Greta", emoção que encerra a competitiva do 29º Cine Ceará

Filme é a última obra exibida da Mostra Competitiva Ibero-americana de Longas-metragens


Não poderia ter escolha mais certa que Greta, de Armando Praça, para encerrar a programação competitiva do 29º Cine Ceará. Edição que começou histórica na premiére nacional de A Vida Invisível, com a presença de Fernanda Montenegro cujas palavras fizeram do momento um pequeno laço do tempo. Quase uma semana depois, um dia antes da aguardada premiação, a plateia do Cineteatro São Luiz despediu-se dos filmes da Ibero-América conhecendo um Marco Nanini diferente dos seus mais famosos papeis em TV. Minha mãe, que foi para ver o Lineu de perto, emocionou-se com o Pedro a quem ele se entrega em Greta


O filme teve sua estreia mundial na Mostra Panorama do 69º Festival de Berlim, e pisou em solo brasileiro nesta noite calorosa em Fortaleza, cidade em que o filme foi completamente produzido. Aliás, a exibição não poderia ser num momento melhor para cinema cearense: aplaudir Greta esperando ver, no dia seguinte, Pacarrete, de Allan Deberton, que venceu oito kikitos no 47º Festival de Gramado


- Você acha que vale a pena investir nessa história? - Mas é a única que eu tenho, meu amor



É a resposta que Pedro dá a Daniela quando o pergunta sobre a primeira noite de amor que viveu com um "forasteiro". É por aí que se confirma que Greta quer ser um filme sobre a solidão inaceitável, a que se agarra a toda forma de inexistência. Como se o Coração Vagabundo cantado por um Caetano Veloso aos 25 anos, ainda estivesse em Pedro aos 70, enquanto leva uma vida silenciosa como enfermeiro de um hospital público de Fortaleza. Nesse trajeto hospital-bar-casa que parece resumir a sua vida, deve ter surgido Daniela, alguém para poder sempre amar de perto. É uma relação de amor muito delicada, apesar de não a conhecermos em seu auge de afeição; Daniela está morrendo, e não demonstra tanto apreço à vida quando o sentimento em Pedro de protegê-la. 


Marco Nanini e Denise Weinberg fazem de seus personagens um recorte dos esquecidos, daqueles que não vivem os sonhos possíveis e que, por isso, sonham como se o sonho bastasse. Pedro quer ser Greta Garbo, a atriz sueca dos anos 30, e esse traço de sua personalidade não encontra qualquer necessidade de aprofundamento no roteiro escrito num só tom, porque é justamente da distância que surge o impacto (em vários momentos, mas especialmente ao fim) sobre o que essa história verdadeiramente conta. 


Em uma cena especial, Daniela canta "Bate Coração" em referência ao seu próprio corpo, mas é também para Pedro. "Eu vou embora pra você aprender a viver sozinho" - mas ele não aprende e não quer aprender. É dessa birra que Greta sustenta a relação com o forasteiro marginal Jean e constrói pequenos rumos que parecem girar em torno do mesmo eixo. Não é um filme, por exemplo, que disseca a estrutura para se orgulhar de ênfases dramáticas ou pontos de virada, fazendo da obra uma longa sensação de dormência. É a vida de Pedro, entrelaçada a de Daniela, que estamos vivendo, abraçando toda sua monotonia e, principalmente, toda a sua vontade de manter algo novo para que, de alguma forma, ainda possa existir o amor. Surpreende, por essa invasão sensível, que o criminoso Jean seja vivido por um doce Démick Lopes que converge o suspense da violência em carinho. É jeitoso, inclusive, a forma como a direção transita dentro dessas abordagens do personagem diante do conflito que criou junto ao "melhor amigo que já teve". Aproveitando todo o poder de sua simplicidade, Greta é apenas um filme lindo sobre o amor em puro estado de solidão, o que é suficiente para que seja possível embarcar na entrega de Nanini ao personagem mais interessante de sua carreira - essa que, curiosamente, inaugura a de Armando Praça no longa-metragem. O 29º Cine Ceará, mais que qualquer outro momento nesses quase oito dias de festival, não poderia perder esse casamento de destinos.


*Texto originalmente publicado no site Quarto Ato

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