• Arthur Gadelha

Maputo Nakuzandza

É proibido akordar


CRÍTICA 25ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES Fazendo um panorama entre personagens e espaços na capital de Moçambique, Ariadine Zampaulo constrói uma trama pouco objetiva de afetos

Quando li a sinopse de Sessão Bruta na programação da 25ª Mostra de Tiradentes, imaginei que ele seria o “filme estranho” da vez dentro da Aurora pela autodeclaração de um “por fazer”, categoria empírica ano passado dada ao Oráculo (2021) de Melissa Dullius e Gustavo Jahn – mas acabou que o filme se mostrou até bem comum no que “experimenta”. Para minha surpresa, o espaço parece ter sido reservado pela curadoria para este filme estranhíssimo, de tom, imagem e ritmo, que acontece num dia comum em Maputo, Moçambique.


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Passeando por histórias e personagens distintos sem a intenção de cruzá-los, frontal ou paralelamente, a trama tem como liga a estação de rádio Maputo Nakuzandza que toca pelos cantos da cidade com poesias, conversas e breves denúncias. Ao mesmo tempo em que a diretora Ariadine Zampaulo desenvolve essas situações de forma convencional no olhar de uma cidade onde “coisas acontecem”, ela também permite que a narrativa tenha ritmo e ordem espaçadas, além de um grau de realidade questionável, como fica claro nas sequências quase fantasmagóricas da noiva desaparecida.


A fotografia pálida, às vezes condensada mas sempre charmosa, e os sons nativos daquele cenário também tão brasileiro, dão esse tom de dormência que tanto nos impõe curiosidade quanto certa impassibilidade. Nesse rumo de instabilidade anunciada, caminhamos por uma sucessão de diálogos e trajetos tomados pela contemplação de texturas físicas e emoções discretas que compõem o imaginário daquela realidade urbana. “É proibido akordar”, anuncia o grafite na parede de uma casa vazia em que a noiva quase flutua, constatando também uma solidão ao redor das violências em curso.


Para buscar uma referência contemporânea do cinema africano, esse panorama que salta entre o tempo real e a expectativa de sua superação, me lembra o que Fradique fez no cativante Ar Condicionado (2021), onde seus personagens percorrem uma calorenta Luanda para alimentar as memórias, frustrações e carinhos sobre o sonho de uma nação. Mas distante dessa proposta discursiva, Maputo Nakuzandza não quer criar ponderações ou paralelos, mas oscilar entre o objetivo e o sensorial para localizar esses corpos femininos e seus lugares flexíveis. Em perspectiva, há um bom filme em torno desse senso morno de coletividade, mesmo que os propósitos e destinos sejam tão borrados.


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Direção: Ariadine Zampaulo

Roteiro: Ariadine Zampaulo, Maria Clotilde Guirrugo

Direção de produção: Ariadine Zampaulo

Montagem: Bruno Teodoro, Ariadine Zampaulo

Fotografia: David Gross

Som direto: Luciano Mauia

Edição de som: Isadora Torres

Essa crítica faz parte da cobertura da

25ª Mostra de Cinema de Tiradentes