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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Com a máquina de heróis em crise, ‘Madame Teia’ já nasce esquecido

★★☆☆☆ Estrelado por Dakota Johnson, novo filme dos quadrinhos Marvel se perde numa máquina enguiçada



Embora muitos sejam categóricos sobre a existência de uma crise em Hollywood com a fábrica de ouro dos filmes de herói, não sinto que exista alguma defasagem no público, que foi seduzido de tal forma a sempre estar sedento por um novo capítulo de uma história que nunca quer chegar ao fim. A crise está do outro lado, na criação de caráter industrial desses filmes que crescem exponencialmente, atropelando processos de roteiro, direção, efeitos especiais, divulgação, etc. Diante dessa velocidade, a máquina enguiçou numa criatividade limitada pelo lugares-comuns que ela mesmo construiu e Madame Teia, lançado neste estranho 2024, surge quase como um pedido de socorro, um efeito colateral inevitável.

 

Os filmes de herói da Sony meio que se tornaram capengas depois do furacão Sam Raimi, mas este capítulo de agora é tão frágil que qualquer uma de suas tentativas de nos fisgar falha no propósito original. É um filme mal feito mesmo, do ponto de vista técnico primeiramente – a bobagem do roteiro, a direção que não sabe o que fazer com a sequências de ação ao ponto de recorrer a zooms digitais, além da jornada rasa da protagonista no rumo de sua “autodescoberta” com direito a viagem espiritual relâmpago para o Peru. Ainda no começo, quando uma tribo salta da copa das árvores para um resgate, a cena parece ter saído de algum filme independente do começo dos anos 2000, numa estética que passa longe de se defender na nostalgia ou numa construção "autoral".

 

O elenco é todo descalibrado, especialmente as três garotas que surgem caracterizadas de forma constrangedora na tentativa de uma solidez que nunca se estabelece. O talentoso Tahar Rahim, na pele desse vilão sem uma gota de personalidade, só afasta a história de sua própria gravidade e desgasta a ameaça por completo. Tratando-se de um universo heroico é desastroso que logo a verossimilhança incomode, já que costumamos oferecer uma série de cartas brancas para os filmes construirem seus novos sentidos. Aqui, porém, é tudo tão indigesto que beira uma paródia, como a fuga do trem, o momento da floresta ou o incompreensível embate final.

 


Por outro lado, a saga pega-pega entre Cassie e Ezekiel em busca de algo que ambos não compreendem tem seus momentos divertidos; às vezes pelos motivos errados, às vezes porque acertou o timing de alguma reviravolta. Nesse campo de compensações, também me surpreende que Dakota Johnson seja um elemento bom, entregando a “graça” inocente de sua personagem para disfarçar o filme com algum afeto ou verdade. Não é o suficiente para sustentar o projeto, principalmente porque seu todo é bobo e muito restringido.

 

‘Madame Teia’, portanto, não é ofensivo ou tedioso como Morbius (2022) ou Homem-Aranha: Longe de Casa (2019) porque encara a mediocridade tendo noção que está guiando seu espectador por caminhos que ele já está cansado de traçar, de supor e de fazer parte sem questionar, como se esse e tantos outros fossem apenas uma página de palavras cruzadas com as respostas já escritas em letras garrafais. Só não sei se sua equipe criativa estava tão ciente assim que o efeito desta declaração pode ter uma sobrevida minúscula, vazia e imediatamente esquecível.

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