• Arthur Gadelha

Má Sorte ou Pornô Acidental: lado a lado, caricatura e civilização

CRÍTICA Vencedor do Urso de Ouro no 71º Festival de Berlim, novo filme de Radu Jude foi a audaciosa escolha da 45ª Mostra de São Paulo para abrir sua programação

Dois momentos espantam na atípica condução dessa história de tal modo que me parece naturalmente impossível pensá-lo sem começar por essas transformações basilares. A primeira, diz respeito diretamente à trama que já estamos esperando do título a sinopse quando Radu Jude lança todas as formalidades para o ar e abre seu filme com cenas explícitas do próprio “pornô” que dá o tom de absurdo à trama; está lá, direto, sem tarjas ou meias-câmeras, vagina, bundas e pênis (ereto, importante ressaltar diante da cultura machista em torno da nudez masculina no cinema). O conflito de uma professora (Katia Pascariu) assombrada pelo vazamento de um vídeo íntimo já começa, ironicamente, pela exposição inevitável e pelo julgamento irreversível da audiência.


O segundo momento é tão interessante quanto confuso – após a monótona introdução de uma câmera que se preocupa mais com a imobilidade de Bucareste em meio à pandemia do que à própria “jornada” da professora nos preparativos para a primeira reunião com os pais de seus alunos, a história é interrompida para uma rigorosa sequência de slides sobre a verdadeira origem (e fundamento) da "brincadeira" que é sua seríssima discussão.


“O Einsatzkommando IIB, em Simferopol, Rússia,

foi ordenado a matar 3.000 judeus e ciganos antes do Natal.

A ordem foi executada com grande velocidade,

para permitir que as tropas celebrassem o nascimento de Cristo”


Intitulada de “Pequeno dicionário de anedotas, sinais e maravilhas”, a sequência apresenta uma série de palavras que suscitam o absurdo gravado na violenta história dos territórios. “Aliada de todas as ditaduras, a igreja é uma das instituições mais confiáveis” – com revelações desse tipo, misturadas em ironia, indignação e humor, Jude faz um panorama afiado (e por vezes desafiador) acerca das civilizações que se dizem modernas, apesar de entranhadas em racismo, idolatria e sexismo, banhadas nas guerras e dedicadas à visões míopes sobre o próprio povo e sua pátria criminosa.



Enquanto essa sequência se desenrola, alternando imagens de arquivo, do cinema e da publicidade, e novas encenações que lembram a teatralidade de seu antecessor Letra Maiúscula (2020), não está óbvio ainda qual a razão de termos abandonado a saga de Emília. Então é na terceira parte, enclausurada na repetição, que emergem as consequências de uma sociedade construída por todas aquelas contradições e agressões ostensivas, motores de um moralismo imbecil cuja manutenção está ligada diretamente à ficção da culpa cristã, a visão do prazer sexual feminino como ferramenta vulgar demais para dividir espaço com a eternidade. Em certo ponto, essa conversa vai girando tanto em torno de si para construir momentos constrangedores, e consequentemente “engraçados”, que o dispositivo se esgota numa visão óbvia e cansada das coisas.


Aproveitando-se disso, porém, ao redor tudo vai desabando para anunciar a “brincadeira”; quando a tarde cai e a luz começa a soar teatral, os personagens da reunião vão crescendo e se colidindo à medida em que a professora finalmente se permite reagir. Quando isso acontece, já é tarde demais porque Jude para de fingir e põe o ridículo ao centro de mesa. Surpreende, no fim das contas, que essa história tão caótica seja na realidade um filme bastante simples, dividido em três partes cujo consumo poderia tranquilamente ser independente.


Apostando na caricatura para pensar coisas sérias, Má Sorte ou Pornô Acidental acaba soando como o reflexo das serpentes da Medusa, metáfora cíclica que o próprio roteiro usa para explicar o que está fazendo – ou seja, os horrores do mundo que são tão violentos na realidade que precisam do cinema em certo grau de abstração inédita para que seja possível encarar.


Essa crítica compõe a cobertura da 45ª Mostra de São Paulo

★★★

Direção: Radu Jude

Roteiro: Radu Jude

Música: Jura Ferina e Pavao Miholjevic

Fotografia: Marius Panduru

Montagem: Catalin Cristutiu

País de Origem: Romênia

Ano de Lançamento: 2021