• Arthur Gadelha

Lady Bird: energia de ser Jovem

Greta Gerwig estreia na direção solo de cinema recriando uma história que provavelmente já conhecemos.


Como atriz e roteirista, Greta Gerwig é conhecida por um cinema refém da diversão, um lugar de aparência autoral onde dores e crises são passageiras e, apesar da intensidade dos acontecimentos, elas podem ser resolvidos em seguida. Não demora muito para que Lady Bird se denuncie exatamente como o que seria a estreia de Greta na direção solo de cinema. Na cena de abertura, a calmaria é lentamente descartada para uma gritaria que faria inveja a Xavier Dolan e, em seguida, o desfecho brusco torna a identidade explícita. A partir de então, podemos esperar vários lugares-comuns tendentes ao “subgênero”, mas Greta entende como fazer da Senhora Pássaro, uma personagem única dentro da própria criatividade.


Com uma delicadeza eufórica, Saoirse Ronan interpreta uma garota que vive o suspense do fim da vida escolar. Prestes a ter que definir o futuro, convive com preocupações sociais, sexuais, e a escola é o que menos importa. Externado na ordenação a todos que a chamem pelo nome rebatizado, Lady Bird surge desde cedo como uma garota suficiente às dúvidas e ao entendimento dos “problemas” – assim como a Frances de Frances Ha, que termina com o namorado após um mal-entendido e segue a vida tranquilamente.


Essa história teria uma configuração naturalista se não fosse Greta, que faz com que a montagem de Nick Houy transforme constantemente o ritmo e consequências das emoções, assim como no longa de Noah Baumbach. Transições, como a inicial já citada, as revelações do “namorado” ou a da faculdade, podem levar um espectador desatento a desconfiar dessa costura enérgica. Esse sentimento faz de uma história comum, uma aventura que flui em conjunto à estrutura “móvel” do roteiro que pincela situações como memória nítida.


No entanto, não é como se Lady Bird tentasse ser Boyhood ou As Vantagens de Ser Invisível. Mesmo que os três tragam a identificação do amadurecimento, as dúvidas que nos tomam à idade, a balança da responsabilidade, questões relacionais, entre outros pontos de uma checklist clássica dos “coming of age”. Lady Bird não assiste passiva às mudanças, ou luta para superar crises; é ela quem decide toda ação ao redor – inclusive, as participações de Danny (Lucas Hedges) e Kyle (Timothée Chalamet) são apenas trechos reduzidos à detalhes da trama diante de sua presença imensa.


Na superfície, o longa parece frágil já que é tão orgânico quanto acomodado a esse formato quase episódico. Diferente de quando Mason se despede em Boyhood falando do momento que o aproveita, Lady Bird diz adeus à sua trama sem tamanha empatia pela “mudança” que simplesmente aconteceu. A emoção está no caminho, nos pequenos momentos, reações, falas e pensamentos, mas pouco na visão geral, já que estamos pela diversão de cada passo.


Concorrendo a cinco categorias do Oscar, Lady Bird ocupa o lugar do filme independente que conquista grande parte dos mais de seis mil votantes. Se o espaço foi ocupado em anos anteriores por Moonlight e Brooklin (também protagonizado por Saoirse), o filme se torna uma expressão interessante de espaço-tempo. Afinal, faz ainda mais sentido que a história de uma garota determinada se passe há mais de 15 anos e dispense qualquer vínculo com os dias atuais (diferente de “The Post”, por exemplo, que não podia ser lançado em outro momento). Com essa condição, o filme poderia ser mais que uma história divertida, mas Greta parece muito satisfeita da maneira como está – o que já é suficiente para torna-lo sincero. “Lady Bird” ama ser simples.