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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Entre vivos e mortos, ‘La Chimera’ se apaixona por fantasmas abandonados

★★★★☆ Estrelado por Josh O’Connor e Carol Duarte, italiana Alice Rohrwacher retoma seu delírio de um mundo que se sustenta nas margens



Quando a inocência absoluta de um garoto salta no tempo em Lazzaro Felice (2018) para dar a dimensão carinhosa de seu delírio, Alice Rohrwacher estremeceu boa parte de uma audiência que não esperava àquela altura ser acometida por uma fábula tão disfarçada. Em La Chimera, novo capítulo quase que de uma mesma história, essa sensação se torna ainda mais atraente porque prefere não esconder sua fantasia em estado de decadência. Vivido por um Josh O’Connor hipnotizante, Arthur lidera um grupo que rouba pertences de valor histórico deixados há décadas ou séculos para almas em seus túmulos – ele, simplesmente, tem o dom de encontrá-los.  Será que se comunica com os mortos?


É delicado a forma como Alice constrói essa existência de uma realidade que também parece sempre um sonho. Até as decisões literais soam sutis, como a própria estética da janela da película de pontas arredondadas e invadida por arranhões e poeiras na lente, além da cor dessaturada em tal sintonia com a luz dourada do sol e o verde vivo das árvores para que a imagem nunca deixe de nos seduzir – afinal, será que a qualquer momento não vamos acordar? É impossível despregar.


Como se continuasse Lazzaro, repete-se essa envolvente sensação da existência coletiva, uma simulação irregular de família onde a percepção da realidade está muito longe do que é solitário, filmando esses personagens como um organismo que precisa agir em conjunto para pulsar a euforia e o suspense. Essa fábula está longe dos idealismos, das conquistas e das rimas, para encontrar o que é áspero e sem resposta. Arthur e seu grupo vivem uma magia muito especial, mas seguem acostumados com a vulnerabilidade das margens, da pobreza, de um tempo que pode não durar tanto.



Embora exista uma linha entre vivos e mortos, aqui está tudo abandonado – não só as tumbas, mas as casas, os morros e os personagens que também são em si fantasmas de uma “vida temporária”. Essa equação, porém, não se traduz em algo fúnebre ou imóvel porque Alice sabe fazer disso o motor para dignificar a peregrinação – então as festas, as danças, os sorrisos e as conversas, tudo que constrói essa realidade nos faz querer mergulhar nela e nunca mais sair de lá. Arthur e Italia, interpretada como um anjo por Carol Duarte, são esses “forasteiros” que também foram raptados.


Apesar de toda decadência a qual essa “família” está submetida, a paixão é um sentimento muito forte para não se deixar afetar – principalmente como espectador que somos, vendo a forma como essas pessoas interagem com os significados de uma arte entregue aos mortos para lhe dar algum valor em vida. Nesse ponto, o roteiro da Alice sabe intuir muito bem sobre o que é subjetivo nessa leitura do que é humano e sobrenatural, como na conversa que um deles tem com uma cabeça decapitada feita “para não ser vista”.


“Senhor... Está sonhando?”, pergunta o comissário do trem para despertar Arthur de suas memórias sobre alguém que morreu mas que ele ainda procura. Esse diálogo ainda no começo, quando saltamos do aconchego de um sonho para a aflição sem fim das paisagens, é um resumo tão melancólico quanto fascinante de tudo o que ‘La Chimera’ consegue ser, da imagem de um mundo condenado a esquecer seu próprio tempo ao movimento dos fantasmas que simplesmente nunca couberam debaixo da terra.

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