• Arthur Gadelha

Jogo de Poder: Costa-Gavras no ritmo do desastre

Baseado no livro “Adultos na Sala: Minha Batalha Contra o Establishment”, de Yanis Varoufakis, diretor grego volta no tempo para ficcionar a queda econômica do seu país

É impossível encarar uma ficção sobre bastidores políticos sem aceitar a parcialidade pessoal do gesto, o que em si não é novidade já que conhecemos a poesia como uma ferramenta individualizada na figura de quem a imagina. O tom, a lógica, a ordem dos acontecimentos, a personalidade e moral dos personagens originados no mundo real, todos os detalhes passam por um crivo pessoal e diretamente político. Não à toa David Fincher expôs as semelhanças e propriedades da série House of Cards diante do mundo real, assim como José Padilha recebeu duras críticas por colocar uma fala alheia na boca do ex-presidente Lula em O Mecanismo, da Netflix. Aqui, estamos diante desse delicioso mistério que é o ponto de vista.


Mais de 50 anos após o estrondo causado pelo olhar que Z (1969) lançou sobre a crise política na Grécia, Costa-Gavras retorna ao país natal para circunscrever outros limites entre povo e Estado, dicotomia aflita que naturalmente doma todos os conflitos capitais - desta vez, mais que um atrito que parte do consumado, uma crise socioeconômica em curso. Na trama, o ministro das finanças Yanis Varoufakis enfrenta as estruturas econômicas para tentar salvar a Grécia em meio às promessas eleitorais de esquerda.


Naturalmente, como a sutileza de discurso nunca foi um elemento necessário ao cinema de Gavras (e nem mesmo um problema em si), aqui o ponto de vista crítico é direto e sem rodeios: diante de um país colapsando em dívidas e na sustentação do mercado interno, o acuamento negligente da União Europeia em movimento liderado pela poderio alemão. "O povo sobrevive heroicamente", informa Gavras em dado momento, surpreendendo a narrativa com uma curiosa ambiguidade política em relação ao que o roteiro nos faz torcer.


Assim como Democracia em Vertigem (2019), da Petra Costa, em Jogo de Poder não há povo, efetivamente, embora sejam elementos centrais em ambas as discussões - isso porque, sem dúvidas, esses filmes não escondem que são sobre a manutenção da "coisa pública" à portas fechadas, de costas para o mundo em que efetivamente existem. "Precisamos de adultos nessa sala", revela a representante do FMI em meio a uma reunião onde os líderes da Europa estão reunidos para falarem sobre seus bancos. Ao fim do dia, a conversa é muito mais politicamente egoica do que nós, como meros eleitores, já temos a consciência de ser.



Gavras, porém, não se rende à burocratização de uma história tão complexa quanto essa e constrói um filme de ritmo pulsante e, por vezes, interminável. Se por um lado dinamiza a forma como essa emoção chega à tela (simplificando conversas, montando as sequências de forma tabular e colocando pra jogo a trilha descontraída de Alexandre Desplat), por outro homogeniza um discurso que já não era lá tão diverso, deixando uma sensação agridoce na condução das poucas nuances que surgem na narrativa. Afinal, baseado no livro escrito pelo próprio ex-ministro (que também prestou consultoria ao projeto), sua figura se torna a único a ocupar o centro de todas as questões.


O saldo positivo dessa balança, porém, é que essa tragédia grega é filmada com muita liberdade de ficção, rendendo cenas belíssimas estética e dramaturgicamente, como a que encerra o filme de forma inesperada. Consequentemente, também há espaço para certa ironia diante de um cenário em que nem mesmo os heróis foram suficientes para dar fim, ou simplesmente um curso, para o desastre - isso está, principalmente, no humor que age silencioso pelas performances de Christos Loulis e Alexandros Bourdoumis, uma dupla afetuosa em constante descompasso. Da forma como está, qualquer plateia irá torcer por um xeque-mate do time grego na mesa do poder europeu inescrupuloso, como se a insistência do ministro Yanis fosse uma digna "jornada do herói" onde o mundo comum e o da aventura são um só, em declínio.


- Eles são nossa força. Se nós os decepcionarmos... Se os trairmos...

- Isso vai acontecer um dia


Assim como na história de 50 anos atrás, o diálogo e a ausência de intervalos são ferramentas que dão energia a uma história que poderia ser enfadonha, repetitiva e tediosa tal qual esse nosso mundo é. Embora demore a se expor, Jogo de Poder gosta de se alimentar dessa brecha que divide a política daquilo que ela é responsável, deixando claro que os bancos, as crises, os Estados e suas organizações (como a cômica União Europeia), não passa de uma violenta ficção.

★★★★★

Direção e Roteiro: Costa-Gavras

Produção: Alexandre Gavras e Michèle Ray-Gavras

Direção de Fotografia: Yorgos Arvanitis

Trilha Sonora: Alexandre Desplat

Montagem: Costa-Gavras, Lambis Haralambidis

País: Grécia, França

Ano de produção: 2019