• Arthur Gadelha

Esquadrão Suicida: tragédia americana detrás da piada

Fingindo que o estrago de 2016 não existiu, estreia de James Gunn na DC Comics encontra razões frágeis para fazer dessa aventura um filme político

Visto do ângulo mais pomposo, é fácil interpretar este filme como uma pequena obra-prima de ritmo e estética diante dos "blockbusters de super-herói", subgênero que vive o suspense da sobrevivência por mais uma década com pavor de repetição. Visto do ângulo discursivo (mas não menos explícito), este filme também é um desastre. Curiosamente consciente de si, Esquadrão Suicida (2021) é absolutamente tudo o que a primeira versão de 2016 tentou ser: para ser divertido, fingir que o próprio filme não se leva à sério, deixar-se brincar, referência imediata ao trabalho de James Gunn nos Guardiões da Galáxias, por exemplo, para não precisar ir mais longe. Mas o que dá errado aqui? Bem, efetivamente nada.


Ao convocar os vilões para assumir uma missão inglória, essa narração começa a fazer sentido quando se explica. Afinal, quem mais poderia ser contratado para apagar os rastros criminosos do Estados Unidos da América em estruturas políticas, e armamentistas, alheias? Bingo, estamos diante de um blockbuster objetivamente político, o que já poderia ser uma característica corajosa por si só, principalmente pela falta de pudor nas cenas de violência e eventuais nudezas. Mas quando esse grupo de mercenários assassina uma guerrilha revolucionária e, em seguida, pede desculpas com o argumento de que seus interesses "são os mesmos", o tabuleiro derruba as peças do jogo. A personagem de Alice Braga, no centro dessa equipe, reclama brincando que americanos como são, "chegam atirando sem olhar". O que é isso que estamos assistindo para além de toda parafernália?


Fica cada vez mais difícil acreditar, mas a ideia central do roteiro de Gunn é fazer essa história sobreviver da ironia: um exército da prisão norte-americana levando a democracia para um país subdesenvolvido. Não é metáfora ou subtexto, mas literalmente o que a história é - e chega a ser realmente engraçado quando isso é revelado para subverter a "índole" de um vilão que, veja só, no fundo é um líder inspirador e "bom pai". "Eu sou um super-herói", grita um personagem emocionado ao perceber também que deixou de ser um vilão - aí sim a metáfora de um democrata radiante por "salvar o mundo" da própria merda. Se do outro lado, dito oficial, a intenção era apagar os rastros da invasão dos EUA, o lado de cá, dos "vilões", é de garantir a sobrevivência do país ao assassinar seu governo e, consequentemente, seu povo latino dominado pelo experimento americano. Como um clássico blockbuster, essas tensões nunca alcançam a tela já que a morte dos nativos é apenas uma retórica de defesa e justificativa de diversão.


Essa ironia heroica lembra, com salva distância, o objetivo do sueco The Square (2017), de Ruben Östlund, que escolhe rir do mercado elitista da arte e da publicidade enquanto o escolhe como personagem central. Na sequência mais famosa da obra, a performance de um homem-macaco quebra todos os protocolos de um jantar milionário para lembrar àqueles que a arte é um elemento visceral da expressão humana, e não um objeto manipulável ou meramente influenciável pelo consumo higiênico. A diferença do que Gunn legitima aqui é que há uma "lição de moral" por trás da piada, deixando que a ironia sobre apenas na decisão final de manter intacta a imagem pacífica dos EUA para proteger suas próprias vidas - afinal, são apenas vilões, certo? Agora cúmplices, os dois lados (em algum momento antagonistas) saem ganhando.


Não há nada "errado" com essa história se isso é exatamente o que ela se orgulha de ser, fazendo com que nenhuma dessas questões realmente importem diante do objetivo de se deixar curtir - como costuma ser na maioria dos filmes de guerra norte-americanos. Gunn, evidentemente, sabe deixar essa jornada muito efusiva com sequências de ação que aproveitam tanto a identidade elétrica de cada personagem quanto a criatividade da edição que brinca de narração com letterings inesperados e com a temporalidade da missão.



A rivalidade entre os personagens de Idris Elba e John Cena, assim como o plot quase independente da Arlequina na performance desafogada de Margot Robbie, o subtexto da Caça-Ratos, a robustez da Amanda de Viola Davis - uma gama muito bem apresentada de personagens e conflitos. Alinhado ao uso esperto da trilha sonora (com direito a Glória Groove e Karol Conká), a liberdade cômica de Gunn invade tudo, fazendo com que sua estética soe como algo que nem DC nem Marvel teriam feito em seus universos por vontade própria, nem mesmo com o que Taika Waititi fez em Thor e o próprio Gunn nos Guardiões. Claro que, em certo grau, o CGI assumido de forma escandalosa no desfecho pode parecer o limite sendo testado, mas a velocidade dos acontecimentos vence a partida.


Pela contradição desses elementos dependentes de si, Esquadrão Suicida é uma tragédia de discurso, tal qual o delírio de Mulher Maravilha 1984, principalmente por ser uma mensagem com apelo tão midiático. Mesmo que ilha, povo e conflito sejam "fictícios", sua vontade de ser um filme político desvirtua todas as intenções, fazendo com que essa já chamada de obra-prima soe apenas como mais um filme estadunidense que se utiliza de pautas armamentistas para expor uma visão grosseira da geopolítica naturalizada até nos campos progressistas da "nação livre" que é essa "América". Embora se proteja com a brincadeira, não dá pra não levar essa história à sério.

★★★★★

Direção: James Gunn

Roteiro: James Gunn

Produção Executiva: Zack e Debora Snyder

Fotografia: Henry Braham

Trilha Sonora: John Murphy

Montagem: Fred Raskin, Christian Wagner

Som: David Acord

País de produção: EUA

Ano de lançamento: 2021