• Arthur Gadelha

Escondida: Panahi de censura para censura

Na busca por uma voz inaudita, o iraniano Jafar Panahi encontra a imagem que não esperava em menos de 20 minutos

Cena de "Escondida", curta-metragem de Jafar Panahi

- Está fingindo surpresa?

- Não... Não esperava vê-la aqui


O zoom na chegada da personagem ao carro estacionado de Panahi nos primeiros segundos desse curta-metragem emula até com certo humor o contexto do "cinema escondido" que o cineasta enfrenta há anos por ser um alvo de repressão do governo iraniano. Sob o título referencial "Escondida", uma espécie de meta-filme (apêndice de 3 Faces) se intensifica quando descobrimos que aquela jornada busca uma mulher cuja voz, literalmente, é silenciada pelos pais. É dessa forma que Panahi, censurado pelo governo, traduz um olhar sóbrio sobre uma censura social. Certamente não há como comparar a perseguição do cineasta com o completo apagamento dessa mulher escondida, e talvez por isso este seja uma história tão surpreendentemente curta.


Filmado por iPhones, como em Taxi Terã, a conversa prévia entre Panahi, sua filha e a convidada que guia o caminho evoca a realidade sobre a moral machista vigente à coerção da existência feminina, a exemplo do pecado materializado na exibição de um sorriso com dentes. Com caráter de recursos mínimos (tanto financeiro quanto de linguagem), a maior parte do filme se estabelece como um contexto recorrente para apresentar a imagem que nem iremos chegar a ver.


Ao encontrarem a casa e se depararem, finalmente, com a mulher proibida de cantar pelos pais que temem que os jovens do vilarejo a escutem, somos surpreendidos com o lógico atrito que há entre a voz e a câmera. Pois é nessa última cena que Jafar Panahi encontra sua imagem de discurso mais eloquente por, justamente, encontrar significado na contradição da censura, na forma como documentar a ausência. É realmente impressionante o que faz ecoar à partir disso, que é quando filme ousar chegar ao fim.


Inclusive, essa história (e a maneira como foi contada) surpreende ainda mais ao fazer parte de um longa (Celles qui chantent ou Aquelas que Cantam, em tradução livre) que reúne outros três curtas dirigidos por Sergei Loznitsa, Karim Moussaoui e Julie Deliquet sobre "canções de mulheres que evocam à sua maneira o mundo em que cada uma delas vive." Na 44ª Mostra Internacional de São Paulo, Escondida em exibido em seguida ao Uma Noite de Ópera, de Sergei, que filma uma mulher ecoando sua poderosa voz num teatro recheado de plateia que a vê a escuta muito bem. Além da distância de liberdade entre as duas mulheres, há também uma diferença circunstancial: as imagens restauradas por Sergei se passam na Paris dos anos 1950, as de Panahi se passam no Irã deste nosso contraditório século XXI. O contraste imediato é desconcertante.

Escondida

★★★★

Direção: Jafar Panahi

Título Original: Hidden

País: França, Irã

Ano: 2020


Uma Noite de Ópera

★★★

Direção: Sergei Loznitsa

Título Original: Une Nuit à l'Opéra

País: França, Rússia

Ano: 2020