• Arthur Gadelha

Cine Ceará: "Vicenta B" chacoalha a crença no destino americano

CRÍTICA O filme é dirigido por Carlos Lechuga, vencedor de Melhor Roteiro no festival em 2007

"Lembra... Tua casa é aqui. Tua casa. Qualquer coisa volta", diz Vicenta ao se despedir de seu filho que está partindo de Cuba. No olhar profundo de Linnett Hernández Valdés já pulsa saudade e esperança sobre o destino do garoto, sentimentos que logo mais veremos desabar diante do temor por aquilo que ela era tão íntima: o futuro. Linnett, na pele de uma mulher com dons de vidência, é a alma de um filme que escolhe ser quieto para enquadrar solidão e esperança.


Ao retornar do aeroporto, Vicenta se depara com seu casarão vazio - as grandes janelas e portas parecem ainda maiores agora que ela está sozinha, na expectativa de que o telefone toque logo para o filho contar como está. Quando essa ausência invade sua própria crença e passa a impedir que ela consiga ajudar os outros, as coisas saem do trilho. Como o Padre Quintana do Javier Bardem que perde a fé em To The Wonder (2012), Vicenta reage com uma decepção silenciosa, custando a deixar seu rosto assumir o medo sobre coisas que ainda nem aconteceram.


É nessa transição que o roteiro de Fabián Suárez e Carlos Lechuga engata, chacoalhando a imobilidade do destino ao inserir uma nova personagem que se sente abarrotada por sentimentos que não compreende. Em um grau muito distante, elas se parecem. Como seu filho, ela também não quer mais viver ali. Vicenta parte então numa viagem física e emocional para longe de casa, tentando ver se essa fuga impulsiva lhe revela algo. A performance de Linnet acompanha a mudança desses sentimentos com uma naturalidade comovente, diante da indiferença, do suspense, da coragem e da culpa, construção que sem dúvidas a coloca na dianteira pelo Troféu Mucuripe de atuação deste ano.



Nesse trajeto de suspense, porém, tudo ao redor transmite o contrário do que ela sente. Mesmo em ambientes fechados ou vazios, os enquadramentos solares e abertos pulsam na fotografia de Denise Guerra; assim como o cuidado que há nas músicas que surgem cantadas ou sobre o ritmo da montagem. Ela não está vendo tudo isso? Para nós soa como um presságio que ela mesmo poderia ter nos seus dias bons, porque Vicenta B nunca parece um filme triste, solitário, apático, apesar de seu texto lamentar o destino dos que vieram até ali. "É como se os bebês não quisessem vir viver nesse mundo", pensa uma personagem, criando esse paralelo imediato com o filho que partiu e a garota que Vicenta não consegue ajudar. Mais que ser sobre os que partem, um filme sobre os que vieram até ali, os que ficam.


"Quem me chamou não me conhece. Esta é a voz de uma mulher africana", canta uma oração que Vicenta assiste. Colocando ao centro da sua sensibilidade as crenças em uma resposta imaterial, olhando brevemente para a ancestralidade dos que vieram de outro continente, essa história encara a fé tanto como um instrumento de reconciliação, quanto uma forma honesta de encarar a violência do passado. Essa talvez seja sua mensagem mais forte, apesar de tão pequena e passageira, deixando uma sensação de que ouvimos muito pouco quando chegamos finalmente nas respostas.


Da metade para o fim, as transformações se tornam bastante objetivas, o que coloca o filme nesse estado assumido de contemplação de uma realidade recheada de pesares e maravilhas. A fé no passado e a esperança no futuro fazem de Vicenta B uma jornada que sabe ser quieta para nos mostrar o barulho.

 
 

Esse texto compõe a Cobertura do 32º Cine Ceará


Direção: Carlos Lechuga

Roteiro: Fabián Suárez, Carlos Lechuga

Produção: Claudia Calviño

Direção de fotografia: Denise Guerr.

Montagem: Joanna Montero

Música original: Santiago Barbosa Cañón

Direção de arte: Alexis Álvarez Armas

Engenheira de som: Velia Díaz de Villalvilla

Desenho de som: Daniel “Gato” Garcés Najar

Elenco: Linnett Hernández Valdés, Aimeé Despaigne,

Mireya Chapman, Pedro Martínez, Eduardo Martínez,

Ana Flavia Barrios

País: Cuba, França, EUA, Colômbia e Noruega