• Arthur Gadelha

Canto dos Ossos: claustrofobia do futuro

Desordem do tempo, amor à morte

Noá Bonoba em cena do filme

Não é bem surpresa processar a informação que este primeiro filme de Jorge Polo e Petrus de Bairros venceu a Mostra Aurora da 23ª Mostra de Tiradentes. Afinal, em cada frame dessa aventura hipnótica está impressa uma vontade de exceder os possíveis limites que moram no tão antigo ato de se contar uma história, o que gera uma fresca sensação de imersão comum às telas do festival mineiro.


Aqui, além da coexistência de uma teia de personagens, temos acesso imediato a espaços que não pertencem ao mesmo tempo ou à mesma estrutura de realidade, entregando à narrativa um fluxo que oscila entre a "civilização" e o inferno, sem nunca deixar que o filme se torne uma coisa só. Esse constante entrelaçado de sensações constrói um sufoco insaciável que essa história não funcionaria sem.


Por ser pensado e construído por jovens cearenses, cujos nomes permeiam as escolas públicas de arte e outros movimentos no Estado, é perceptível uma ambição pela imagem surreal que nos leva a uma vaga (e provavelmente injusta) convergência: o subtexto dos vampiros que atravessam o tempo poderia ser algo que Guto Parente faria para arranhar o realismo do coletivo cearense que pertenceu, o Alumbramento, nome famoso em terras independentes.


Canto dos Ossos, premiado na mesma mostra de cinema que consagrou Estrada para Ythaca há 10 anos, até pode soar como algo dessa natureza experimental, talvez pela estrutura narrativa que aposta bastante na sensorialidade e na instável estética de um cinema feito à mão. Mas a verdade é que esse "novo" cinema de Jorge e Petrus é como um Alumbramento moderno e mais desamarrado de si, tão sério quanto brincalhão, e esse equilíbrio fortalece o que nele há de mais macabro.


É essa mesma claustrofobia que impede o filme de ter sequer uma sensação padronizada. Não é uma história de amor ou sobre nada assim que seja tão diretamente descrito. A intenção subjetiva se desfoca diante da morte que sopra mesmas histórias sobre corpos que ainda vão existir, fazendo de Canto dos Ossos uma experiência terrivelmente arrepiante não apenas pelo que conta, mas principalmente pelo que mostra, pela forma como faz isso por cima de seus personagens, por cima da sua confusa linha temporal. Este é como um filme que veio do futuro.

★★★★

Direção: Jorge Polo e Petrus de Bairros

País: Brasil (CE e RJ)

Ano: 2020