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  • Foto do escritorArthur Gadelha

No fim do mundo, “Batem à Porta” cristaliza a mecânica do Shyamalan

CRÍTICA Estreando depois do engessado Tempo (2021), novo capítulo atualiza o interesse do cineasta pela fábula da engrenagem. O texto, claro, contém spoilers.

Wen (Kristen Cui) and Eric (Jonathan Groff) in Knock at the Cabin, directed by M. Night Shyamalan.
Wen (Kristen Cui) e Eric (Jonathan Groff) ©Universal Studios

Saindo mais uma vez indiferente de uma sessão do M. Night Shyamalan, veio-me uma constatação da repetição: ele sempre teve esse jeito esgotado de causar relações entre fantasia e realidade, até mesmo em suas obras-primas na virada do século. O que se perdeu no meio do caminho, e nesse meio podemos incluir até tragédias industriais como O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013), foi a tensão do mistério para além de sua mera resolução - por isso saímos sem ar das reviravoltas de O Sexto Sentido (1999) e A Vila (2004), pois há algo maior do que a própria resposta, de ordem permanentemente existencial.


De certo modo, Shyamalan meio que sempre foi isso. Como seria num TCC de qualquer faculdade de cinema, roteiros construídos por cima de metáforas que precisam, religiosamente, atender a revelações diretas - como no enfadonho Mãe! (2017), onde Aronofsky esconde um enigma pífio na brincadeira de quem é quem da história do mundo escrita na bíblia. No caso do Shya, esses destinos calham em algo que nos aproxima da moral e do amor, filmes cuja graça está na auto-tradução, como se ele fosse um Christopher Nolan em versão carinhosa. Convence muita gente, e faz sentido, principalmente nesse estado do cinema americano de suspense, horror e mistério que chega aos montes semanalmente e costuma não ter um pingo de afeto, apenas concatenado sustos e tensões como num parque de diversões.


Amante do cinema como ferramenta, ele inegavelmente sempre buscou construí-lo para além do dispositivo meramente técnico de emoções, especialmente porque seu critério estético é notável nos enquadramentos e na montagem, mas sinto que essa intenção de um cinema que se justifica na pureza da fantasia, por muitas vezes, resvala na bobagem. Como A Dama na Água (2006), Fim dos Tempos (2008) e Tempo (2021), que se resolvem com a profundidade de um episódio das Três Espiãs Demais. Fizeram uma piada de que Batem à Porta (2023) seriam uma continuação de Sinais (2002), o que faz sentido na paródia de um grande cineasta que esqueceu a dúvida da existência e ficou refém de como resolvê-las.


Adriane (Abby Quinn), Sabrina (Nikki Amuka-Bird), Leonard (Dave Bautista) and Redmond (Rupert Grint) in Knock at the Cabin, directed by M. Night Shyamalan.
Adriane (Abby Quinn), Sabrina (Nikki Amuka-Bird), Leonard (Dave Bautista) e Redmond (Rupert Grint)

Baseado no livro O Chalé no Fim do Mundo (2018), de Paul Tremblay, a história já começa quando um quarteto armado (claro, os cavaleiros do apocalipse) invadem uma cabana onde estão Andrew, Eric e Wen, família que havia acabado de chegar ali para passar férias (Um Funnier Games, comentou o cineasta Marco Dutra). Quando o grupo lhes revela que o fim do mundo está sob decisão de um sacrifício, o subtexto dessa trama nem fica tão claro - o que a início é ótimo -, e engata o ritmo de forma envolvente. É verdade? Por que uma família aleatória receberia uma missão tão determinante? O jogo começa.


Do ponto de vista da ação, assistindo a esse filme como se fosse apenas mais um suspense imemorável feito por algum realizador desconhecido de Hollywood, o filme vai entretendo à medida que se sustenta a dúvida sobre o quão violentas são aquelas pessoas e diante da questão de que forma a história vai conseguir avançar se os dias precisam passar e o casal continua preso às cadeiras. Eles vão fugir? A filha vai ajudar?


Quando começa a se revelar tudo vai ficando morno porque, afinal, esse filme precisa ser uma fábula. As pragas jorram sobre a humanidade, os cavaleiros se sacrificam e a crença de que pessoas ordinárias são escolhidas (por Deus) vai se tornando real nas suas cabeças. "Você acredita neles?", pergunta um dos maridos, com medo de ele mesmo acreditar. Mesmo sem energia, fisicalidade ou temor, é uma pergunta parecida com a feita silenciosamente em Sinais, no personagem em crise de fé vivido por Mel Gibson.



"De tempos em tempos, eles escolhem alguém", comenta Eric se projetando como o Jesus Cristo da vez que se doa pelo mundo porque dá razão a uma força divina que viu na luz do sol, porque, acima de tudo, ele acredita. Se por um lado há uma curiosa subversão pelo salvador da humanidade ser agora um homem gay, por outro há a tolice do background daquele casal (que, claro, adotou uma criança de outro país) destinado a deixar de existir para manter o mundo tão violento como tal. Cinematograficamente, nesse ponto o filme já estacionou de todo seu cuidado e tensão, e a parcimônia quase plastificada do Jonathan Groff não ajuda a fazer o próprio filme levar a sério essa virada de chave.


O destaque do elenco fica com Dave Bautista (Leonard) e Ben Aldridge (Andrew), que conseguem formar uma dupla antagônica quase que isolada, já que eles representam os opostos da fé. Bautista, vindo de seus personagens brutos, aqui surpreende na dúvida entre violência e cuidado. Na primeira cena do filme ele contracena com Kristen Cui (Wen) numa troca impressionante de tensões, principalmente pelo esperto ângulo em diagonal invertida que Shyamalan usa no plano/contraplano para desconcertar o encontro.


Como trama apocalíptica, Batem à Porta pelo menos faz com que Fim dos Tempos pareça uma obra-prima no guia de um caos que só precisa de reação e fuga. Aqui, como no quebra-cabeça do conto de fadas de 2006, as peças vão ficando mais estáticas à medida em que se encaixam, sobrando para alguns apenas a brincadeira de um cinema que tem muita fé, mas pouquíssima coisa para se acreditar.

 
 

Direção: M. Night Shyamalan

Roteiro: M. Night Shyamalan, Michael Sherman e Steve Desmond

Edição: Noemi Preiswerk

Fotografia: Jarin Blaschke e Lowell A. Meyer

Desenho de Produção: Naaman Marshall

Direção de Arte: Dave Kellom e Vince Mountain

Efeitos Especiais: David Lebensfeld, Grant Miller, Tyler Deck,

Guillaume Marien, Jared Levin e Sebastián Eyherabide

Trilha Sonora: Herdís Stefánsdóttir

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