• Arthur Gadelha

Animais Noturnos: menos Tom Ford, mais Amy Adams

Quem diria que o narcisismo de um diretor teria mais espaço que uma atriz tão magnética?

O novo filme de Tom Ford mexe com temas e formatos que, provavelmente, já conhecemos. Traição e vingança, além de usar como principal meio narrativo a transição entre realidade e "ficção". Susan (Amy Adams) recebe um livro do ex-marido dedicado para ela e o conteúdo muito intenso assusta sua recepção. Só nisso, Tom acusa seu interesse em transformar situações corriqueiras em algo além: há um estética nesses sentimentos que vale a pena ser retratada. Vale?


Boa parte das páginas e sites de cinema reclamam da ausência de Amy Adams nas indicações do Oscar por esse filme e eu não entendi como isso seria possível. Não que o Oscar seja o senhor da razão, mas o modo como o roteiro (também de Ford) enxerga sua participação no filme é o que há de mais frustrante. Amy tem mesmo o olhar triste que Edward enxerga em Susan, e essa informação é interessante somente de perceber. Na prática, isso parece se perder em uma narração que se atém a ser estética. Susan é, evidentemente, a personagem mais perdida do filme, mas isso não parece uma questão importante para o roteiro, colocando ela como uma simples observadora que surge muito rapidamente em um montagem que tenta não ser tão fragmentada, mas falha. As inserções das realidades recaem de modo grosseiro, apesar da transição aparentar modéstia e elegância.


Os conflitos do passado ficam ora muito previsíveis e insuficientes a uma narrativa de mistério, ora tentam se apoiam no próprio mistério - esse que se enfraquece muito, principalmente com sua conclusão muito indicativa e, de certa maneira, abrupta. Seu ritmo de timing arisco (diante das distinções entre os "núcleos") não faz de suas histórias objetos interessantes - os elementos são frágeis: conflitos entre casal, mãe e filha, vingança à sangue frio, etc. É um pouco frustrante saber que seu mistério encontra desfecho num lugar-comum, embora sugira a todo instante algo mais corajoso. A relação entre Edward e Susan não é tão bem pontuada e isso rende boas sugestões. Mas assumir a fraqueza de Edward como uma grandiosidade (vingar-se pelo livro) não parece um bom resultado para a trama.


Mas a estética quase narcísica de Tom Ford funciona como um elemento de conexão. Por mais que pareça muito perdido diante da inundação de diferentes climas, a utilização funciona como um discurso sobre arte/estética que fica na tangente do filme. Além do mais, há uma luxúria desconcertada na trama, o que é realmente interessante do começo ao fim. A fotografia escura e reducionista combina com a trilha quase introspectiva - sem muitas delongas, esses momentos se tornam a mente de Susan. Quem diria que o narcisismo de um diretor teria mais espaço que uma atriz tão magnética como Amy Adams?

★★

Direção: Tom Ford

País: EUA

Ano: 2016