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  • Foto do escritorArthur Gadelha

‘Ficção Americana’ encara o Oscar na ironia do “racismo comercial”

★★★★☆ Indicado a quatro Oscars, filme de Jefrey Wright é também o menos discutido da temporada. No Brasil, principalmente, nem chegou aos cinemas



O único filme dirigido por uma pessoa negra entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano é também o mais ofuscado, apagado das discussões e da mídia. Aqui no Brasil chegou só hoje de madrugada, no catálogo da Prime Video, sem qualquer barulho, aviso, campanha, um card sequer. Falo isso, principalmente, porque ele estar indicado ao Oscar também faz parte de sua ironia.


Na trama adaptada do livro homônimo de Percival Everett pelo diretor e roteirista Cord Jefferson, escritor adjunto de séries como Watchmen (2019) e Master of None (2017), Jeffrey Wright vive um escritor talentoso que, de sopapo numa brincadeira, escreve uma história carregada de estereótipos e envia para seu editor como piada pela forma como os EUA consomem e premiam apenas histórias que retratam a população negra dessa forma.


É uma piada, trágica, mas acham que o livro é sério e querem publicar. Então ele se vê enrolado nessa fabricação do "astro negro" que vende, um desastre tão anunciado que vira comédia ácida. No livro, a metalinguagem de um autor sem imagem. No cinema, a metalinguagem de um autor que constrói sua imagem. Mas em nenhum dos dois cenários ele foge, nas duas histórias ele está cercado por essa "ficção americana". O filme é uma surpresa. Sua ausência nas discussões do Oscar, não, mesmo indicado em Filme, Ator, Ator Coadjuvante, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora.


O que há de mais irreverente, no entanto, é a forma como Jefferson traduz essa crítica num humor escancarado pelo absurdo, tendo que lidar diretamente com personagens e cenários que não querem ultrapassar suas próprias caricaturas. Se por um lado isso reduz muito as contradições expostas na burocracia de uma indústria que rotula quais "vozes negras" quer ecoar, por outro faz com que a mensagem encontre sua força justamente na redundância. Todos os "artistas" brancos que surgem são alienados em seu próprio recorte, o que aos poucos vai nos recordando que a realidade não é tão diferente assim fora da paródia.



Nem acho que o filme se preocupe com uma "abordagem delicada", especialmente por sua estrutura tão objetiva, deixando evidente que seu ponto de vista não é estancar tramas sobre penitências de uma população negra escanteada no processo de tantas e tantas colonizações ainda em curso pelo planeta, como lá e aqui neste exato minuto. Olhando para o outro lado, "Ficção Americana" apenas observa o jeito como essas narrações são capitalizadas justamente pela população branca que coordena a indústria do entretenimento. Ao mesmo tempo em que premia Moonlight (2016) também premia Green Book (2018), o que faz todo sentido dentro dos termos que essa trama elabora.


Sterling K. Brown e Issa Rae, nesse sentido, são personagens fascinantes porque o roteiro e suas performances, especialmente, os coloca num meio de campo essencial para estabelecer uma discussão direta com o que a revolta de Thelonious representa, subvertendo lugares-comuns ao mesmo tempo em que os opera. Quando se despede de nós, talvez tenha faltado a essa história algum tipo de "passo adiante" para além de suas questões originais - se não na ideia de uma nova resposta, mas que acabasse na pergunta. Ao preferir apenas a ironia, porém, seus autores preferem nos lembrar do porquê de histórias como essa "precisarem" acabar assim.

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