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  • Foto do escritorArthur Gadelha

Em ‘A Vida São Dois Dias’, Mouramateus pensa uma comédia sem risada

CRÍTICA Novo longa de Leonardo Mouramateus continua projeto existencial em tom de brincadeira

Em meio a uma briga em Antonio Um Dois Três (2017), primeiro longa-metragem de Leonardo Mouramateus, Johnny pede que Antonio repita algo que disse como se não estivesse acreditando nas palavras ofensivas que largou. Antonio repete, mas não para reforçar seu ódio. Repete como num palco de teatro, como se fosse uma outra apresentação da mesma peça para uma plateia diferente. Ele faz igual – para além da experimentação narrativa, uma cena que guarda certo humor. Esse cinema do Leonardo está em sintonia com a inocência do teatro e na sua relação (talvez tão íntima) com a própria vida fora dele, mesmo que esse “lado de fora” nunca tenha sido um lugar muito do seu interesse.


“Meio que é uma comédia”, ele disse para apresentar seu novo filme A Vida São Dois Dias em sessão única, esta semana, na programação da Mostra Retroexpectativa do Cinema do Dragão. O tom de sua revelação, mediada por uma breve risada, logo fez todo sentido – na tela, o drama existencial de dois irmãos gêmeos que não conseguem “existir” ao mesmo tempo é constantemente freado por um tom de brincadeira, de ilusão translúcida, de compromisso efêmero.


Saltando de cidade, de tempo e até mesmo de aparência, Rômulo e Orlando parecem sempre uma caricatura feita um do outro, rabiscos, pinturas inacabadas, disposição recheada de sentidos e humores. “Ele quer a ti”, responde a personagem de Mariah Teixeira quando um deles pergunta inquieto o quê seu irmão imóvel e calado está buscando. Essa construção de esboços só se torna desinteressante quando rege os demais ao redor, personagens que surgem para construir certo grau de superficialidade proposital – e provavelmente engraçada. Algumas aparições pontuais têm seu charme à parte, como as passageiras de Noá Bonoba e Ana Luiza Rios. Mariah, na conversa dos livros, também cativa.


Mariah Teixeira - A Vida São Dois Dias - Critica - Leonardo Mouramateus
Mariah Teixeira

Mauro Soares, que parece só construir mais vidas para aquele Antonio que já tinha três, aqui é sem rumo na pele de Rômulo, mas robusto quando toma o corpo de Orlando, o livreiro de Portugal que pisa com sapatos na areia da praia. Nele há um mistério e uma piada, lado a lado, porque sua entonação e sua postura nada imponentes lhe fazem parecer que não se importa tanto com as coisas que estão acontecendo. Mouramateus tem consciência de como tudo isso agrega à experiência da própria obra – especialmente porque Mauro também é roteirista –, e consegue construir algo simples e envolvente diante de situações que na mão de cineastas mais ambiciosos poderiam entrar em combustão.


Na graça de uma piada sem risada, aquela íntima e com secretos fundos de verdade, pode ser que A Vida São Dois Dias faça a plateia se imaginar mais do que o projeto supõe. Se na saga do Antonio nos pôs para pensar em ficções pessoais, agora talvez tenha a ciência de pensar no que somos divididos. Sendo a existência do gêmeo uma metáfora ou apenas uma brincadeira, é como se Rômulo e Orlando vivessem se escondendo para não descobrirem o que um continua do outro. Tanto é que, quando juntos, só um existe.


“Se eu não crescer, me destrua.

Se eu obcecar, me distraia.

Se me ganhar, distribua.

Se me perder, subtraia.

Se estou no céu, me abençoe.

Se eu sou seu, me possua.

Se dou um duro, me sue.

Se sou tão puro, polua.

Você que me continua.

Você que me continua.

Você que me continua”

Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra

 
 

Filme assistido na Mostra Retroexpectativa 2023 do Cinema do Dragão

Direção: Leonardo Mouramateus

Roteiro: Leonardo Mouramateus & Mauro Soares

Produção: Clara Bastos, André Mielnik, Leonardo Mouramateus, Mauro Soares

Produção Executiva: Clara Bastos, André Mielnik

Fotografia: Aline Belfort

Direção de Arte: Dayse Barreto, Francisca Sousa, Ton Martins, Elen Barbosa, Natalia Maia

Som Direto e Edição de Som: Guilherme Farkas

Trilha Sonora: Fernando Pereira Lopes

Montagem: Tomás von der Osten

Mixagem: Bernardo Adeodato

Color Grading: Andreia Bertini

Efeitos Visuais: Pedro Henrique Figueira & Antonio Baines

Foley: Joana Niza Braga & Teresa Braga

Direção de Produção: Fernando Romero

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