• Arthur Gadelha

007 Contra Spectre: despedida obrigatória de Daniel Craig

Uma conclusão que, ao invés de homenagear a saga, a enfraquece


Daniel Craig disse que preferia cortar os pulsos à participar de outro “007”. Bom, o ator disse algo semelhante antes de filmar “Skyfall” então não temos como ter certeza se esse é, de fato, seu último Bond. Sam Mendes e seus roteiristas, no entanto, parecem não querer se surpreender no futuro ao fazerem questão de martelar a todo instante: esta é a última vez que você irá vê-lo.

Essa intenção fica muito evidente quando toda a produção, narrativa e até mesmo esteticamente, homenageia a trilogia que se iniciou com o compromissado “Cassino Royale”. A sequência do deserto, por exemplo, lembra imediatamente “Quantum of Solace”, e o “vilão da vez” faz parecer o poderoso Silva de “Skyfall”. Isso sem contar as referências à personagens que, vivos ou mortos na saga Craig, a trama dá um jeito de citá-los. E é justamente em tudo isso que mora o problema: “Spectre” é forçadamente um filme de despedida.

Seu roteiro parece preocupado demais em causar as momentâneas nostalgias. Enquanto a jornada de Bond ao passado se torna muito detalhada, o “background” se torna genérico – o que não acontecia até este. Depois da morte de M (Judi Dench), muita coisa muda e o destino da MI6 entra em risco. Mallory (Ralph Fiennes) e sua minúscula equipe não convencem ser aquilo que assistimos há três anos – é evidente que há um colapso na organização, mas o sentimento de realismo ganha um grau de opacidade preocupante. Parte disso, ainda assim, é válido; o ritmo da produção faz de tudo para refletir à perca de norte dos personagens.

Um belíssimo plano-sequência abre o filme no ambiente arrebatador do “Dia dos Mortos” no México. O que Bond está fazendo? Bom, ainda não sabemos. Temos certeza, no entanto, que em instantes começará uma perseguição frenética e, ao fim de toda carga intensa, o clima vai esfriar para que a abertura do filme possa entrar ao som de uma música composta à produção (Um Sam Smith afinadíssimo comprando a árdua tarefa de superar Adele). Apoiando-se à ideia de “desfecho”, é claro que “Spectre” não poderia deixar de honrar com vigor sua estrutura linear; não faz questão de quebra-la do convencional, como o último ato surpreendente de “Skyfall”, por exemplo.

O contexto em que Léa Seydoux surge encaixa bem e sua participação em cena também impressiona – sem levar em consideração, no entanto, quando o roteiro faz uma decisão óbvia afim de criar um arco narrativo que perde bastante impacto. Christoph Waltz, como um antagonista que repete motivações anteriores, assusta se mantendo à linha mesmo não aparentando a invencibilidade de seus antecessores. Ao buscar explicar a importância na trama, sua construção, além de parecer muito fácil, desestrutura a qualidade de outros vilões da saga. A resolução encontrada para costurar o quarteto de filmes parece um desespero conclusivo dos mais pífios que, ao invés de homenagear, enfraquece todo o resto da saga.

Embora complicações que encontra ao estabelecer seus próprios motivos, “Spectre” é um filme corajoso e até mesmo sentimental. Encontra garra em suas sequências de ação sempre muito bem acompanhadas pela trilha sistemática de Thomas Newman e pela realidade verossímil (dá para imaginar porque Craig disse aquela frase) de suas encenações intensas. Gastou muito dinheiro, é evidente, em locações mundo afora e em uma enxurrada de efeitos visuais. Dentre tantos pontos de vista, fica ao menos uma certeza: James Bond e Daniel Craig, por mais que um deles esteja farto, continuam sendo um encaixe que, apesar dos pesares, ainda funciona bem.

Direção: Sam Mendes

País: EUA

Ano: 2015