• Arthur Gadelha

Voyage of Time

Diante do mistério, Terrence Malick se esforça para não sair do lugar


CRÍTICA Lançado originalmente em 2016, versão IMAX do primeiro documentário de Terrence Malick chega em 2021 mal envelhecido

Em A Árvore da Vida (2011), Terrence Malick fez o que nem Kubrick nem Tarkovski fizeram, de modo tão radical e narrativo: olhar para o universo, especialmente para seu tamanho estúpido, como um milagre sem origem, impossível de narrar ou de traduzir. Quando a Sra. Obrien olha para o céu com um olhar de raiva, e certa vingança, ela se impõe agressiva diante da onipresença divina, mesmo sendo ela tão cristã.


“Por que você levou meu filho?”, murmura com fúria e lamento – sem essa resposta, Malick nos leva para a origem do movimento, do impulso pela vida, confrontando a imensa história de tudo que existe com essa dúvida tão tola de uma mãe indignada. Ao som de Lacrimosa, composição de Zbigniew Preisner em luto pela partida de seu amigo, a sequência soa tão majestosa que o susto levou plateias desavisadas tanto à emoções de indiferença quanto de sublimidade. Eu, subitamente, chorei sem entender por quê. Mesmo que essa sequência seja apresentada com 20 minutos de filme, e por isso sem margem para que se possa assimilar com a inquietação do luto, essa emoção está lá, independente da própria história.


Passados 10 anos desde que essa história impressionou o público de Cannes, porém, o que ocorreu a Terrence Malick, esse diretor ora tão enigmático, privado e surpreendente? Ao que parece, foi ele o mais impressionado por toda essa jornada, visto que esses mistérios tão naturais à nossa existência o deixaram obcecado, mesmo que também tenha sido ele a nos dizer que não há explicação.


Se Amor Pleno (2012), O Cavaleiro de Copas (2015) e De Canção em Canção (2017) invadem a solidão de uma vida material e por isso desgarrada do amor cósmico, por outro lado esses filmes se tornam tão entediantes e cíclicos quanto as experiências desses personagens unidimensionais numa vida urbana fria, boba e sem graça. Malick, porém, vence no sublime, mesmo que ele seja mínimo: o padre sem fé vivido por Javier Bardem em 2012 é um desses bons exemplos de mistério, assim como o camponês que se nega a representar Hitler em Uma Vida Oculta (2019). Bem, mas estamos aqui por um motivo que chega bem atrasado: Voyage of Time (2016), documentário que teve sua estreia oficial brasileira apenas hoje no streaming da MUBI, divulgado como uma “Experiência IMAX”.


+ Uma Vida Oculta (2019): silêncio da dúvida



Lançado originalmente mais perto de A Árvore da Vida, é bem claro que Malick não se presta ao mínimo esforço de maquiar a intenção de estender (ou apenas reciclar) as imagens usadas naquele trecho tão curto e intenso de sua obra-prima, olhares experimentais para o natural movimento da vida: de takes naturais à shots microscópicos e objetos desenhados em CGI, sua equipe dá curso a esse pensamento sobre a dimensão do mundo. São imagens lindas, não resta dúvidas, mas quando completamente isoladas elas deixam de significar algo verdadeiro.


Mesmo que tenha bons momentos, como quando surge um besouro em sequência ao balé de duas baleias, a montagem desse filme chega a 2021 muito mal envelhecida, principalmente pela narração tão tola de sentimentalismo numa carta familiar que não tensiona nada para além da intimidade e de um texto que dá voltas. Mais uma vez o autor assume que não há resposta para nada – mas aqui são suas perguntas que não têm valor.


Importante destacar que, por algum motivo, esse filme possui duas versões: uma de 90 minutos narrada por Cate Blanchett e outra, que é essa, de 46 minutos narrada pelo Brad Pitt. Em 2016 assisti a versão da Cate, e confesso que ela me impressiona muito mais porque sua trama faz questão de se misturar ao mundo real e por isso articula algumas situações que convencem além da repetição. Essa, tão curta, parece só uma grande justificativa para levar essas imagens às salas IMAX o tempo suficiente para não entediar ninguém.


Oscilando entre o universo se formando, a terra se ajustando e os bichos se movendo, Malick deixa escapar um ou outro pensamento que nunca vai adiante. “O que significa isso? Uma eternidade aperfeiçoando uma folha...”, comenta brevemente o que parece ser um grande conflito, lembrando inclusive o que já perguntou numa de suas histórias anteriores nesse confronto de valor ao tempo da natureza: “O que é esse amor que nos ama?”. Sim, também não temos resposta porque não temos como saber: somos pequenos, e o tamanho da nossa história não quer dizer nada ao que já existia antes – essa é uma frustração tão nata e desesperadora, que no fim das contas eu até entendo bem por que mesmo que Terrence Malick se deixou ser levado assim tão cegamente. Ou seja, se Voyage of Time não nos diz nada do que não foi dito, quem sabe esse seja apenas um bobo e delicioso lembrete de que somos nós, e nossas dúvidas, que não importam. Vale a pena?

Direção e Roteiro: Terrence Malick

Produção: Sarah Green

Fotografia: Paul Atkins

Narração: Brad Pitt

Montagem: Rehman Nizar Ali e Keith Fraase

Direção de Arte: George Hull

Efeitos Especiais: Paul Alix

Ano de Lançamento: 2016

País: EUA