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  • Foto do escritorArthur Gadelha

‘Tudo o que você podia ser’ capta felicidade além da ameaça

★★★★☆ Grande vencedor do 18º For Rainbow, novo longa de Ricardo Alves Junior faz do carinho seu elemento central

Quando Aisha se ergue pela janela no carro em movimento para sentir o vento tocar a mão e os cabelos, numa despedida também sensorial daquele lugar único no mundo, tudo já está fazendo todo sentido para nós, espectadores desse adeus que nunca se deixa ser tomado pelos medos e angústias porque a história é, sobretudo, uma celebração.

 

Cruzando ficção com traços documentais, a trama escrita por Germano Melo tem como grande conflito uma partida, algo comum à tantos dramas urbanos, ganhando força diante da naturalidade da sua melancolia. Aisha vai partir para São Paulo após ser aprovada em uma universidade e precisa se despedir de Belo Horizonte, sua cidade, numa noite de encontros, conversas e festas com três amigas muito próximas: Igui, Bramma e Willa.

 

O que torna esse mergulho íntimo tão envolvente é o olhar honesto com o que está ao redor de Aisha, dando o devido valor para o que aquelas pessoas são e representam, fazendo com que cada uma tenha espaço próprio na construção desse carinho que é acessado de forma coletiva - as quatro presenças agem de forma bastante orgânica e espontânea, fazendo com que a emoção de suas vidas nunca desapareça da superfície.



No registro desse único dia, porém, o filme também capta a forma como suas vidas são constantemente ameaçadas pela violência transfóbica de uma sociedade que se desengessa à passos muito lentos. Cenas como o assédio no ônibus e o ataque ao carro, por exemplo, estão lá para enquadrar essa intervenção que acontece do lado de fora, publicamente, na vida urbana.

 

Dos lados de “dentro”, porém, as quatro constroem sua própria liberdade, fazendo com que a felicidade seja um sentimento muito grande para que seja ameaçado – e isso está em tudo, na cor, na música, na montagem que respeita os tempos das conversas mais profundas e nos enquadramentos que fazem questão de mostrá-las como parte não só daquela cidade, mas daquele tempo. ‘Tudo o que você podia ser’ consegue captar exatamente isso, essa fresta por onde a luz passa e as alcança, juntas, na experiência coletiva de um mundo que ainda pode ser tanto.

 

“Você não quis deixar que eu falasse de tudo

Tudo que você podia ser, na estrada

Ah! Sol e chuva na sua estrada...”

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